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domingo, 27 de maio de 2007

Rapinha de tacho

Passou correndo na minha frente, com tanta pressa e medo que nem notou que eu o observava. Meteu-se rapidamente embaixo do tanque e puxou a cortina. Não queria ir à escola.
Passou, ali, toda a manhã, imóvel e mudo, temendo que descobrissem que ainda não se acostumara a freqüentar as aulas.
Não sabíamos, porém, nem eu nem ele, que naquela mesma manhã, aproveitando-se do descuido de alguém, o cachorro de vovó escapulira pelo portãozinho da rua e estava, desde então, desaparecido. Pronto! Reunião familiar! Vovó, papai, mamãe e todos nós, os filhos. O pobrezinho, por ser mais novo e tímido, de tão recolhido que estava, parecia agir de forma suspeita. Não demorou até a culpa cair toda sobre ele. Enquanto vovó resmungava e papai berrava acusações, o pequenino encolhia-se cada vez mais na cadeira. Nós dois sabíamos da sua inocência, mas, para defendê-lo, precisaríamos revelar outro segredo, o que não resolveria o problema. Ele não tinha saída. As coisas se complicavam, vovó sofria imaginando as mais terríveis mortes pro, pulguento, e adorado cão, enquanto todos faziam recomendações sobre os cuidados que deveriam ser tomados para que coisas assim não mais acontecessem ao menino que, a essa altura, só fazia chorar.
E foi chorando, sem coragem de se defender, sem coragem de amaldiçoar o fujão, nem mesmo de abrir a boca que o menino, desesperado despertou em mim um misto de coragem e compaixão. Não sei bem o que houve. Quando vi, já tinha confessado o “crime” que não cometi. A princípio ninguém acreditou. Eu não havia saído de casa, e era o que alegavam. Além do mais, queriam saber por que eu demorara tanto a assumir a responsabilidade. Mamãe, finalmente, defendia o já inocentado chorão. Perguntava se não me partia o coração vê-lo herdar a culpa de um erro meu. Não me importava. Sabia que castigos não me aplicariam. À essa época, já era moço feito. Precisaria, no máximo, reconquistar a confiança de vovó, e não seria difícil. Nada poderia doer tanto quanto assistir ao sofrimento do meu caçulinha. Sentia-me, inclusive, culpado pelos seus problemas. Não o ajudava a crescer e enfrentar seus medos. Assim como todos naquela casa, eu apenas acompanhava o seu solitário crescimento. Isso quando não o censurava ou dava apelidos... Talvez fosse hora de trazê-lo mais para perto, dar a ele a atenção de que tanto precisava. Seria esse o nosso acordo e nosso segredo!
Que gracinha os olhinhos aliviados dele me fitando. No fundo, acho que ele, e só ele, sabia o que estava acontecendo. E, nele, eu poderia confiar!




[redação antiga e adaptada!]

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