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segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Hemominas

Cresci vendo e ouvindo sempre as mesmas campanhas sociais ressaltarem a importância da doação de sangue como um ato de extrema solidariedade e cidadania. E como a maioria da minha geração, acredito, esperei ansiosamente os dezoito anos para fazer a minha parte em uma luta vista sempre como tão bela.
Até eu conhecer aquilo de perto...
Hoje, enfim, fui, pela primeira vez, doar sangue aqui no Hemominas. Depois de “muito bem instruído” pela mocinha das informações, fui encaminhado a uma sala de palestras. Lá, uma estagiária explicou-me timidamente todo o longo processo a que seria submetido, que, em si, já é chato. Compõe-se de uma seqüência de filas que só terminam depois da sua paciência. Então, quando você, depois da “palestra”, do cadastro, do preenchimento da ficha e do “pré-lanche”, está pronto para doar, é só esperar mais dez minutos com a delicada agulha cravada no seu braço (o tempo varia de acordo com a “sua circulação, é claro”).
Acontece que, já nessa fase, são retirados cerca de 500 ml de sangue (o.O), o que corresponde a uma bolsa (450 ml) e mais três daqueles tubinhos de ensaio para que o seu sangue seja só então avaliado. Ou seja, se nesses exames ficar constatado que você não pode doar, seus 450 ml de sangue já estão fora das suas veias... Isso não estaria errado? Por que o exame não é feito antes? Ah! Sim! Exigiria mais filas, aposto. E todo esse sangue “inadequado para doação” é “incinerado” (como foi bem enfatizado). Para quê? É desperdício de tempo, dinheiro e sangue. Demoramos até dois meses para recuperarmos alguns elementos do sangue. A quantidade volta ao normal em 24 horas, mas o novo sangue não é tão rico quanto o antigo. E aposto como eles sabem muito melhor que eu o desgaste que essa reposição de nutrientes acarreta para o organismo de cada um de nós.
(In)Felizmente não cheguei tão longe. Pouco antes de completar 90 minutos de espera fui atendido por uma mulher de branco (não me arrisco a dizer o que ela era...) que pretendia preencher a minha ficha. Perguntou-me tudo o que podia, de vícios a doenças na família, mas duas coisas chamaram mais a minha atenção:
->no que se refere às doenças venéreas, ela me perguntou com quantas pessoas mantive relações sexuais nos últimos doze meses (sem olhar pra mim porque não sei quem estava mais constrangido), se uso drogas ou se já tive relações sexuais com pessoas do mesmo sexo ou prostitutas. Não entendi! Só prostitutas e homossexuais têm doenças?
->ao final da ficha, ela me perguntou se estive gripado nos últimos 14 dias. E ao que confirmei, ela me dispensou. Horas de espera, uma ficha inútil e NADA! Não posso doar porque estIVE gripado. É implicância minha querer que alguma única alma viva, dentre as tantas por que passei, fizesse essa simples pergunta a mim? É muita falta de comunicação pros meus padrões... Minha última esperança era poder, pelo menos, pular todas essas etapas, já vividas hoje, quando do meu retorno, em 14 dias. Mas NÃO! Terei que começar tudo de novo... Será que eu vou voltar? Será que alguém volta?
Se alguém aí não entendia como o Hemominas aparece tanto na TV para pedir doações e apoio popular para ajudar a manter o seu banco de sangue, eu explico. Não é falta de doação não, porque as filas são enormes. É falta de organização, falta de informação. Ninguém sabe de nada, ninguém tem pressa, ninguém se preocupa com os que passam a tarde sentados à espera.
Seria tão fácil, bonito e eficaz se soubessem fazer.
O povo brasileiro tem coração bom, mas paciência não dá em árvore. E, pelo visto, eficiênciência também não...

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[Nem vou tocar na questão política porque já estou suficientemente enjoado...]

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