Páginas

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Conversa de ônibus

Já tinha programado dormir bem cedinho hoje. “Nada de blog, Caio”, dizia minha consciência. Mas há coisas que me obrigam a escrever! Geralmente as coisas tristes, mas as divertidas também.
E hoje, voltando para casa, vivi algo tão divertido, que preciso passar para palavras...
É claro que, contando, nunca tem a mesma graça! Mas eu vou achar graça quando EU ler! E isso já é muito...
.

.
Entrei no ônibus ouvindo meu Good Times calmamente. Sentei-me no primeiro banco depois do cobrador, ao lado de uma mulher aparentemente comum, e percebi que eles conversavam.
A princípio, nem prestei atenção no assunto. Mas, depois de algum tempo, não pude deixar de observar que rolava quase um “clima” entre eles. O cobrador olhava para a mulher com um olhar diferente, e ela parecia gostar disso. Passei a reparar melhor e vi que ela usava esmalte vermelho, um conjuntinho preto, desses com cara de uniforme, muito creme no cabelo e uma rosa tatuada no braço. Aparentava uns 50 anos. Ele, alto e gordo, parecia ainda um pouco mais velho.
Ela, percebendo o interesse dele, falava abertamente de seu “passado”. Ele respondia baixo, para que eu não o ouvisse. E, quando eu olhava, fazia silêncio e me encarava. No rádio, tocava uma de minhas músicas favoritas. E foi entre os versos que ouvi o diálogo (monólogo, porque eu só ouvia as palavras dela) mais assustador da semana:
.
Tô com saudades de você embaixo do meu cobertor
- “Foi! Gastei todo o meu dinheiro com ele. Todo todo! Mas tirei o desgraçado da cadeia!”
De te arrancar suspiros, fazer amor
- “É. Eu precisava tirar ele de lá, né?! Mas assim que ele saiu, cartão vermelho. Pus ele logo pra correr...”
Tô com saudades de você censurando o meu vestido
- “Foi não, sô! Foi seqüestro mesmo. Ele era assim. Você chegou a conhecer? Ele era cobrador também. Eduardo, da linha da savassi! É esse mesmo! O povo chamava dele de Edu.”
Das juras de amor ao pé do ouvido
- “Ah, meu filho! Eu bati nele demais! Bati muito! Sério! Pergunta pra ele quem sou eu pra você ver. Ele vai dizer que sou a mulher mais louca que ele já conheceu. Tirei sangue dele. Comigo ele não aprontou não...”
Truque do desejo
- “Tenho um de dezoito, doido igual eu. E uma mais nova calma. Ai, mas ela é tão calma que irrita. Esses dias ela tava reclamando que uma amiguinha dela bate nela. Falei com ela mesmo, ‘quando ela vier te bater, bate nela antes. Mostra que você não tem medo. E se ela te bater mais, você xuxa uma faca na bunda dela!’. Mas depois eu arrependi, né!? Até escondi as facas lá de casa (risos). Vai que ela resolve, né?!”
Guardo na boca o gosto do beijo
- “Eu sempre fui assim. Eu bato mesmo. Olhou torto pra mim, eu desço o braço. Desabafar é bom é batendo em alguém. Mas batendo mesmo. Pra acordar com ‘as mão doendo’ no dia seguinte (risos)!”
Eu sinto a falta de você, me sinto só
- “É, uai. (muitos risos) Tem que ser. Eu vou descer ali na frente, a gente conversa mais depois. É! Aham...”
.
Ela nem precisou pedir licença. Ao primeiro movimento, eu já abri caminho! Estava engolindo toda e qualquer manifestação. Não podia rir, nem gritar. Muito menos sair correndo. Depois que ela desceu, o cobrador apontou na direção do meu rosto e falou algo meio enrolado!
Tum tum tu-um... tu-u-um... tu...
Tirei o fone do ouvido, com o coração entre os olhos...
E ele só queria licença, pra descer da sua cadeirinha.
Pedido feito, pedido atendido! É claro!
.
Depois eu achei graça, mas senti medo, confesso.
Trombamos com as pessoas nas ruas e todas parecem tão comuns. É tão estranho pensar que não sabemos NADA sobre a imensa maioria delas. E que as aparências podem mesmo enganar.
Hoje, você senta ao meu lado no ônibus, e fica incomodado com meus solfejos no ritmo das músicas. Amanhã você se sente com ela! E arrisca olhar torto, vai...
O mundo está violento, e a violência está em todos os lugares, ou eu é que me impressiono fácil?
.
Ah! Antes de se despedirem, lá pelo “E aí, será que você volta? Tudo à minha volta é triste...”, eles trocaram telefones!
.
Será que vão assaltar um banco?

Nenhum comentário:

Postar um comentário