Páginas

sábado, 1 de setembro de 2007

Incompleto

Sinto orgulho, às vezes, da minha “independência”. Não sei. Mas pareço livre demais para a minha idade. Tenho dezoito anos e já não preciso mais da autorização dos meus pais para (quase) nada. Não que eu seja um rebelde mal agradecido, jamais. Eles também preferem assim. Sou o primogênito, maior de idade... tenho mesmo que saber me virar. E foi assim desde criança.
Minha mãe nunca freqüentou as reuniões dos meus colégios. A imensa maioria dos meus professores nunca soube sequer o seu nome. Nunca tirei notas baixas e para ela isso era o bastante. Resolvi, sozinho, todos os meus problemas na escola, fossem com colegas ou professores. Brigas, punições, premiações, correções. Senti-me, várias vezes, “abandonado”, confesso. Mas, hoje, vejo que foi melhor assim. Melhor para ela, que não teve esse tipo de amolação, e para mim, que aprendi a correr atrás dos meus interesses, sem precisar da intervenção dos meus responsáveis. Acho que é essa a palavra: “responsável”! Sou o responsável por mim desde que Sou.
Meu pai quase não me faz perguntas, manda a minha mãe perguntar. E mães são sempre tão boazinhas, não? A minha é um pouco desconfiada, mas raramente fica contra mim, o que diminui ainda mais as “amarras”. Amém!
Costumo contar, como exemplo disso, que quando passei em meu primeiro teste teatral (no Palácio das Artes), precisei apenas avisar em casa. Pedi o dinheiro para a inscrição, é claro, fi-la, fiz o teste e, depois, busquei o resultado. A comemoração foi fantástica. Meu pai não gostou, o que também é claro. Mas minha mãe quase explodiu de tanto orgulho. Passada a euforia, ela me surpreendeu com um “vou precisar fazer a sua matrícula, ou você pode fazer sozinho? Tem que ser eu? E onde é?”. Ela até então não sabia nem do que se tratava! Festejou a aprovação do filho apenas por ser dele, independente do que fosse.
Hoje, as poucas limitações quase não existem mais. Como o que quero, compro as minhas coisas, saio à noite, volto no dia seguinte, durmo fora (meu pai não me deixava dormir nem nas casas dos meus avós quando criança!), bebo (pouco e só o que ainda não conheço e quero experimentar) e conto para eles... Parece que “desistiram de mim”, eu sei, mas prefiro pensar que confiam na responsabilidade que me ajudaram a construir. Foi um investimento a longo prazo, e agora é hora de colher os frutos.
O estranho é eu, apesar de tudo isso, ainda me sentir vazio. É como se me faltasse uma coisa, que eu sei o que é, mas que não depende de mim. Interessante como, às vezes, sentimos falta do que nunca tivemos... é a tendência humana de buscar sempre mais, e depositar toda a esperança que se tem naquilo que ainda não foi conquistado. Quando se estuda, a felicidade está no trabalho. Trabalhando, a felicidade corre para a aposentadoria, e assim por diante.
Estudo em um bom colégio, tenho amigos maravilhosos, uma família equilibrada e harmoniosa, uma casa confortável e uma razoável mixaria mensal para os pequenos gastos. Entretanto, permaneço incompleto. Falta-me alguém com quem dividir tudo isso. Alguém que me espere na porta daquele colégio, conheça aqueles amigos a aquela família, pinte, comigo, as desbotadas paredes do meu quarto e me mostre que dinheiro não é nada quando se tem amor.
Amor! Olha eu colocando todas as minhas expectativas naquilo que ainda não tenho...
.
.
.
[Odeio escrever textos grandes porque sei que quase ninguém tem paciência para ler! Ainda mais quando são esses desabafos à diarréia mental! É tudo uma mera introdução da última linha! Oh, última linha...]
=/

Nenhum comentário:

Postar um comentário