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segunda-feira, 24 de setembro de 2007

"Retrô" gramatical


Passei algumas horas, hoje, com a minha avó. Ela escuta pouco, e já não tem muito da clareza de sempre. Mas me diverte com suas opiniões conservadoras (quase “preconceituosas”) e seu vocabulário que me encanta.
A última pérola com que me presenteou preencheu-me de uma falsa nostalgia que ainda me envolve.
Esqueceu-se do que eu havia dito, e explicou que é porque já está ficando “biruta”!
A princípio, achei “bonitinho”. É sempre divertido ver alguém, no auge de seus 83 anos, usar palavras, como essa, que nós atribuímos apenas aos pequenos. Mas ela não.
Remanescente de uma geração distante, pôde viver com lucidez o apogeu (e a decadência) de cada década, dos anos 20 aos 90, passando por todos os outros. Advém possivelmente disso, a dificuldade em “compreender” certas evoluções e “modernidades”. O novo assusta até os mais preparados.
Mas isso não vem ao caso agora. O que me intriga, por enquanto, são as expressões que ela usa. Palavras que conheci apenas nos filmes, ou soltas em uma ou outra boca pelo mundo... e que eu gostaria de ter proferido. Ou proferir!
Sou do tempo em que as gírias não passam de vícios de linguagem. Não há mais aquele jeitinho divertido e inocente de dizer o que se pensa. Há, por um lado, palavrões e palavras chulas (ah! E como está cheio disso o nosso vocabulário... Procure “pênis” no dicionário e tire suas próprias conclusões!); e, por outro, clichês que tornam “pesada” a nossa comunicação. É o caso do “tipo assim”, do gerundismo, do “véi”. É um tal de “se liga” pra cá, “fala sério” pra lá.
Será que nasci na década errada? Penso que não. Não teria paciência para os namoricos de portão (embora sinta falta da inocência e do romantismo que o tempo parece ter apagado!), para a educação rígida dos pais, a falta de infra-estrutura de quase tudo e a ausência de tudo aquilo que nos faz pensar “como as pessoas viviam sem?”, como microondas, máquina de lavar, controle remoto... Mas queria ver, nas pessoas, a volta daquelas palavrinhas tão “engraçadinhas”.
As mocinhas seriam “brotos”; e os rapazes, “pães”. O “doidão” tornar-se-ia “biruta” (como a minha avó, ou "pateta" (como tantos). “Legal” seria “bacana”. Amigos seriam “camaradas”; e inimigos, “bobocas”.
Não posso dizer que sinta falta, já que não conheci. Mas vejo, no mundo, tanta coisa desnecessária. Tanto desenvolvimento científico e intelectual não combina com tamanha dificuldade de comunicação entre as pessoas.
E todo mundo prefere dizer que “tá osso” a propor uma mudança.
Se a evolução nos está levando por esses caminhos, eu proponho um retorno a algo mais seguro, que sabemos que deu certo!
“Supimpa”, não?
“Demorou”...

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