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domingo, 16 de dezembro de 2007

Cinderela XXI


Mais uma vez ela estava sozinha.
Sentada em um “pufe” no canto do salão, remexendo os dedos espremidos nos sapatos. Não eram de cristal, mas incomodavam e compunham o ar “de família” que escorria de seu “look”. Percebeu um rapaz que a olhava interessado. Em pé, fumando próximo a um balcão. Intercalava longas tragadas a olhares furtivos. Correspondeu-os. Num instante, ele estava no “pufe” ao lado. Perguntou-lhe o porquê da solidão e elogiou o seu sorriso. Ela, tímida, respondia com risadinhas breves e acenos de cabeça, tentando manter intacto o sorriso de que ele disse gostar.
Outro instante, e já estavam dançando. Mãos que se descobriam, enquanto bocas se procuravam... o coração pulsando forte. Teria enfim o encontrado? Seria ele o dono de seu coração? Era legal. Espirituoso, inteligente, interessante, além de muito bonito. Finalmente um namorado que as amigas aprovariam. Estava nas nuvens.
Saíram. Ele queria “pegar um ar”. Perguntas, mais informações... uma pequena diferença de idade, gostos parecidos, signos avessos. Nada importava. Era ele e pronto. Em sua cabecinha de minhoca, já se teciam planos, sonhos, momentos... tudo tão perfeito. Encontrara o protagonista do seu conto de fadas. Nem mesmo a incômoda fumaça do cigarro afetava o brilho do momento.
Ele a pediu que segurasse sua água enquanto ia ao banheiro. Deu-lhe um beijo de “até logo” e passou pela porta. Ela esperou. Cinco, dez, quinze minutos. Contou até cem. Deu mais quinze de tolerância. Não podia ser! E ele? Onde estaria?
Entrou atrás! Mas seus olhos não quiseram acreditar no que viam... quis correr, gritar. Uma lágrima tentou se anunciar... nada fez! Engoliu em seco e, com uma frieza que não reconhecia sua, devolveu-lhe a garrafinha. Ele já tinha outra nas mãos. Na certa, sentira sede. Sorriu brevemente, despediu-se e partiu. Naquela noite, sentiu-se “bife”. Mero pedaço de carne mastigado e abandonado no canto do prato. Viu que era verdade o que diziam sobre os homens. Poderia ter sido tão bom. Namorariam, seriam felizes. Quem sabe casamento...
Mas não! Ela buscava uma alma; ele se contentava com um corpo.
Terminou assim. Ele, agora, deve estar com outra(s). Ela sofre, mas não chora. Sabe que ele não merece. Foi da pior forma possível, mas ela viu que errara; percebeu a distância que o separava de um “príncipe”. Ele, no entanto, nunca saberá a princesa que ela sempre fora.
Os sapatos ela tirou. Não perdeu. Não valeria mesmo a pena...

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