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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

"Aquele talento"

Mães de crianças geralmente não têm outro assunto além dos próprios filhos. E uma das coisas de que mais gostam de falar é sobre as habilidades do rebento. “Ah! Vocês precisam ver que lindo meu filho jogando bola. Todo mundo diz pra eu o matricular numa escolinha porque ele tem futuro...”; “Nossa, Fulaninho parece um macaquinho! Está sempre subindo em árvores, correndo, pulando... fica doido quando passamos alguns dias no sítio, sabe?”; “O meu prefere vídeo-games, e é ótimo neles. É só comprarmos um jogo novo e ele não descansa enquanto não vence...”.
Às vezes, me pergunto: Do que minha mãe se gabava quando eu era criança?
Não sei fazer nem gol contra, nunca gostei de brincar e tenho horror a quase tudo que faz suar. Deve ter sido muito frustrante para ela, eu imagino. “Futebol? Não! Ele não sabe jogar não!” – “Ah! Nem precisa insistir, ele odeia isso...” – “Acho que ele não vai querer não. Quer tentar ver com ele?”...
Pelo menos, fui uma criança muito bonita. De alguma coisa, pelo menos, ela pôde se orgulhar. Sempre ouvíamos “Nossa! Que menino lindo!” – e isso devia ser seu único conforto, coitada. Certas qualidades só despontam quando já temos certa idade.
Tantas vezes vi meus pais comentarem com meus tios e primos mais velhos que não sabiam o que se passava comigo e, depois, com meu irmão – vítima da mesma falta de interesse por tudo. Meu pai sempre achou que era verme! Para ele, nada explicava duas crianças tão cheias de saúde não gostarem de nada. Nada também não! Nós gostávamos de tevê! – e isso parecia ser ainda pior! Meu irmão com seus desenhos animados e eu com minhas novelas...
Com o passar do tempo, ele tomou, tardiamente, gosto pelas brincadeiras de criança. Quando era hora de crescer e estudar, ele quis brincar de carrinho e joguinhos eletrônicos. E assim ficou.
Eu não! Cresci e fui gostar de coisas ainda menos “aceitáveis” para uma família tradicional. Aprendi a ler e não queria saber de outra coisa. Não jogava bola na rua, não queria sair... só largava meus livrinhos (das bibliotecas que passei a freqüentar por conta própria, porque, em casa, ninguém nunca alimentou esse meu gosto) para ver novela. Adorava! Eram como a continuação televisionada do mundo de ficção em que eu preferia viver.
Mas isso cansa! Quem acompanha televisão sabe o quanto ela é repetitiva! E eu cansei. Decidi, então, criar o mundo em que queria viver, e me pus a escrever!
Pronto! “Ele só pode estar de brincadeira! Todo mundo na piscina e ele com aquele caderno na mão!”.
Eu gostava de estudar e, nas horas vagas, descobri-me bastante criativo. E quis me dedicar a isso. Mas pais não se orgulham de filhos escritores. Não mesmo!
“Quando criança, ele não brincava! Cresceu enfiado no quarto e nem amigos tem! Agora, na idade de namorar, de sair... ele só fica naquele computador!”.
Eu os entendo hoje! Não deve ter sido fácil., mas, com o tempo, eles se adaptaram a essa particularidade! Orgulhavam-se do meu desempenho escolar, dos meus concursos de redação e dos prêmios disso decorrentes. E eu me sentia feliz por, enfim, dar a eles, mesmo que a essa altura da vida, algum motivo para se gabarem nessas rodinhas de pais e mães exibidos.
Era gratificante ouvi-los dizer “O Caio escreve tão bem! Já na segunda série do primário, ganhou um prêmio estadual de redação!” e ver os sorrisos desconcertados nos rostos atentos da assistência. Que coisa mais imprópria para uma criança, não? Principalmente para um menino! Mas, se meus pais já se haviam conformado, eu não precisava me preocupar mais com essas “outras pessoas”.
Hoje, vejo o quanto isso foi positivo para minha formação. Recentemente, relendo minhas provas abertas do Vestibular, percebi o quanto é importante “saber escrever”. Às vezes, eu falava sobre algo que não dominava, mas a riqueza das construções sintáticas parecia compensar a falta de informações. Penso que é preferível corrigir um texto ruim bem escrito que o contrário. Querendo ou não, vivemos em uma sociedade de aparências. E um texto bem escrito, nesses casos, vale muito mais que uma cabeça cheia de idéias. Não que a minha seja vazia, mas ela aprendeu a florear bastante tudo aquilo que ainda precisa desenvolver.
E quanto mais difíceis eras as perguntas, mais bem elaboradas eram as respostas. Algumas pareciam rimar. E meus olhinhos brilhavam de excitação! Admito não ter sido uma criança comum. Mas existe, no mundo, algo menos interessante que ser “normal”?
Eu cresci “estranho” e quero ser sempre assim!
E o futebol? Ah! O futebol não me fez a menor falta...

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