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domingo, 20 de janeiro de 2008

Dois amores, uma noite, nenhuma saída

Primeiro, haviam sido os braços. O contorno delicado, os movimentos mecânicos... tudo lhe despertava interesse naquela quase marcha escada acima. De imediato, sentiu um frisson: “E agora? Que cara faço quando chegarem?”. Surpreendeu-se interessado em quem não deveria. Comprometido estava e, assim, deveria permanecer.
Chegaram. Cumprimentos, abraços, sorrisos... olhares que, discretamente, desbravavam cada palmo de carne e reservavam, à imaginação, o prazer de desenhar o que não era visto. Perigoso isso, mas de um prazer inenarrável. Era característica sua já. Preferia imaginar a ver. Olhos são sinceros demais e dilaceram as imagens que uma mente sonhadora é capaz de criar. O suspense do não-conhecido, a expectativa da descoberta, os devaneios da imaginação. Tudo o divertia e excitava mais que a própria visão - seca e real - do corpo adorado. E não parecia ser o único.
A conversa fluiu e vieram as semelhanças. Idéias, características e práticas comuns. Além de um mundo de diferenças que se abria, atraente, diante de seus olhos esperando para ser explorado. Já tornara a se sentir o menino sozinho e livre para o amor de sempre. Esquecera sua companhia, suas responsabilidades. Aquela imagem – tão familiar – apagara de sua memória tudo o que o tempo, a duras penas, havia construído. Sabia ser só mais uma ilusão. A convivência torna a maioria das pessoas menos interessante e, talvez por isso, amasse tanto nos primeiros dias e tão pouco nos que se seguiam. Gostava de novidade. Animavam-no os olhares sedutores, o jogo de conquista, as brincadeirinhas com segundas intenções... Nem pensava em sexo. Queria desvendar os mistérios daquele semblante, conversar, conhecer. O prazer carnal dura pouco e quase nada acrescenta à alma. E essa latejava de interesse frente ao desconhecido.
Pronto! Estava, mais uma vez, apaixonado. Pensava já em se declarar, e imaginava até as palavras bonitas que usaria. Burrice! Quantas vezes viveria aquela mesma (e imbecil) situação na vida? Não aprendera nada com os erros do passado. Tantas vezes se apaixonou e acabou desiludido. A culpa não era das pessoas. Elas eram sempre ELAS. Ele é que as mudava muito rápido. Vestia-as de qualidades, valores e brilho idealizados. Criava imagens perfeitas sobre cada uma e se decepcionava, sempre, ao perceber que nenhuma delas sequer se aproximava da realidade.
Mas era cego e contra isso não podia lutar. As esperanças, que, a essa altura, já inundavam seu coração, dividiam, no entanto, espaço com as incertezas e a insegurança herdadas de tantos desencontros.
A noite seguiu e, entre músicas e jogos de luz, tocavam-se mãos e corpos. Pequenos esbarrões que pareciam cada vez menos acidentais. O calor que passeava entre eles não aumentava, entretanto, o interesse. Pelo contrário: aos poucos, conheciam-se mais pelo tato que pela imaginação. Cinturas, seios, quadris... tudo parecia tão (e cada vez mais) acessível que perdia o – outrora tão elevado – valor. O dia ainda não amanhecia e o amor já estava extinto. Recorde? Talvez. Aprendizado seria melhor. Constatação da eterna busca a que estava condenado seu coração. Tentaria guardar na memória mais essa desilusão a fim de amenizar os possíveis efeitos das futuras. Mas faria sentido? Sabia que não, mas precisava tentar. A gente tem que acreditar! Sempre e em tudo. Principalmente no que nos faz bem. E nisso ele confiava.
Lembrou-se da (pen)última frustração amorosa, com quem ainda trocava beijos e manifestações esporádicas de carinho. Viu-se, então, divididos entre dois amores. Soou bonito em seu pensamento: “dois-a-mo-res, dois, doisamores, amoooresss...”. Riu-se de suas próprias besteiras e imaginou, por um instante, como seria se fosse verdade.

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