Páginas

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Férias, TV e BigBrother.

Estou de férias. Ai, Sol. Ai, vida...
Mas, acima de toda a preguiça que ronda a realização daqueles pequenos caprichos (acordar tarde, assistir ao filme de depois da novela, dormir após o almoço...), essa é a época de fazermos tudo o que a rotina nos impede ou de que nos livra a falta de tempo ao longo do ano. O que, assim como tudo na vida, é bom e ruim.
Arrumei meu quarto (pela segunda vez no ano – a primeira foi no meu aniversário), voltei a freqüentar o, já abandonado, MSN, vi tevê... Estou tentando readaptar-me à rotina de criança normal que não precisa fazer Vestibular. O quarto foi a primeira conquista! Não sei onde enfiei tanta apostila em 2007. Na churrasqueira, não cabia mais papel e quem via de fora podia jurar que estava havendo uma festa. Queimei tudo! Caso o pior aconteça – e NÃO vai acontecer -, eu vou precisar comprar e ler tudo outra vez mesmo...
O MSN tem sido difícil. Não sei se consegui convencer o meu inconsciente, mas não consigo mais gostar daquelas conversas que tomam noites e noites... Continuo tentando. É bom ter, por uma única janela, contato com tantas pessoas em tantos lugares diferentes. E não gosto de perder contato com amigos.
A tevê, no entanto, me decepciona. Sempre fui espectador assíduo dos mais diversos programas. Cresci com as novelas e não os desenhos animados de que devem gostar as crianças. Filmes, programas de auditório... a tevê sempre foi, para mim, a porta aberta para um mundo muito maior que o meu. E pouca gente sabe tanto sobre vidas e fofocas de celebridades quanto eu, confesso! Acontece que esse tão esperado reencontro com a “caixa mágica” tem sido trágico! Assisto a um bloco das novelas e, no intervalo, prevejo o que vai acontecer no seguinte – pode ser a experiência, a imaginação ou sorte de principiante, mas eu não erro uma! Os programas são sempre os mesmos, e essa mesmice assombra os neurônios de qualquer pessoa – ressuscitaram Fantasia! Onde vai parar esse mundo?
Minha última tentativa foi com o BigBrother! Não existem férias sem BigBrother depois da novela, existem? E, nessa edição, apesar da repetição dos perfis dos participantes (GostosaBurra, BonitoSemAssunto, HomossexualAmigoDaGalera, PobreComHistóriaTristePraContar...), há uma novidade que me chamou muito a atenção: cada participante tem um Blog em que escreve todos os dias.
A idéia é legal e muito útil a quem a souber explorar. Cada um deles tem, assim, uma oportunidade de se expor ainda mais e aumentar sua popularidade em meio aos espectadores. Quem tem acesso a internet e não pode viver do Paper View, tem uma nova maneira de acompanhar a rotina de seus preferidos. Ou, pelo menos, deveria ter. O que se vê, no entanto, nesses diários virtuais, é como são burras as pessoas por quem torcemos e a quem o povo ajuda, semanalmente, com ligações e SMSs.
Os Blogs dividem-se em três tipos: os Oportunistas, os Fracassados e os Vazios de Tudo e de Todos. Os primeiros são dos participantes que realmente tentam fazer disso uma forma de arrebanhar mais torcedores ou parecerem mais carismáticos aos olhos do público. São cheios de textos, opiniões e pensamentos, sempre pautados pela moral e pela fé de que tanto gostam as tradicionais famílias brasileiras. Os seguintes têm o mesmo objetivo, mas muito menos carisma e quase nenhum jogo de cintura. Mostram a falta de argumento desses “Brothers” e o quanto eles ainda precisam assistir a reality shows para saberem do que o povo gosta. Os últimos, e, por incrível que pareça, menos divertidos, comprovam a “falta de recheio das mais belas embalagens”. Não têm textos, nem conteúdo, nem pontuação... existem apenas porque precisam existir – e isso fica evidente em poucas linhas.
Há, ainda, uma outra divisão, alheia e superior a todas as outras: a Intelectual. É feio dizer, eu sei, e brasileiro que é brasileiro tem coração sensível e gosta mesmo é de gente pobre. Se possível, feia e mal alfabetizada. O retrato do herói urbano marginalizado. Mas é impressionante o que escrevem aqueles animais. Não são todos, é evidente. Há médicos entre eles, profissionais qualificados, pessoas estudadas. Mas alguns assustam personalidades em formação como a minha! BBBs servem para mostrar gente bonita, não inteligente. E ninguém precisa ser nenhum poeta para cativar as pessoas e ganhar Um Milhão de reais. O que se espera, no entanto, é que adultos – principalmente das classes média e alta, como a maior parte deles – saibam, no mínimo, elaborar frases com começomeioefim, como se aprende desde o primário! A atenção se volta, frente aos “deslizes” publicados, para dois pontos: o baixo nível de instrução da população adulta brasileira (em sua maioria infelizmente) e o “nada a acrescentar” que caracteriza aqueles cujas vidas acompanhamos como nossas. É duro pensar que a grande maioria dos participantes desses programas fatura, fora dessas casas, em poucos meses, o que estudiosos trabalham uma vida inteira para acumular – e, quase sempre, não conseguem. Um deles, provavelmente o mais burro, sairá, já, com seis zeros no bolso. Fora os carros, o contrato com a Rede Globo, os comerciais... E muito disso se deve às ligações feitas de todo o país por pessoas que, geralmente, nunca viram nem virão tanto dinheiro junto.
Como nada é tão ruim que não possa piorar, constatei que o número de visitas e comentários cresce na medida em que decai a qualidade dos posts. O povo deve mesmo gostar. É a falsa moral cristã que nos rege e ensina a valorizar cada um pela beleza interior e não pelo que possui – no caso, formação básica. Podem me dizer o que for, menos que a beleza interior de alguém é valorizada nesse tipo de produção.
Estou com medo de traumatizar! Sério. Parar de ver tevê, não lavar mais os cabelos, comprar umas calças xadrez (opa! Uma bermuda eu já tenho!) e sair, por aí, fumando maconha e transando com tudo o que se move para demonstrar a minha revolta. Não é preconceito, é bom gosto! Insatisfação por ver o mal sempre vencer o bem na nossa sociedade. Por saber que, no Brasil, apenas dois escritores vivem exclusivamente da renda de seus livros – isso se considerarmos Paulo Coelho um escritor. Se não, é só um! – enquanto bundas, braços e sorrisos povoam (como heróis) o imaginário popular e enriquecem às custas da ignorância de gente já sem perspectivas nessa vida.
Agora, imagina dizer isso a quem desce do segundo ônibus em que viajou de pé e sobe, correndo, o morro para não perder a novela e o programa... Ou para os adolescentes que, assistem e ainda freqüentam os chats da Globo.com sobre a atração.
Difícil! Platão diz, na Alegoria da Caverna, que o filósofo é o único homem que consegue se soltar das correntes e conhecer o mundo, mas, ao retornar aos seus para dividir o que aprendeu, é discriminado e morto (se não for isso, e me desculpem os mais inteirados do assunto, é algo nesse sentido) por parecer subversivo. A diferença é que, para perceber a “verdade” sobre a tevê, ninguém precisa ser filósofo ou conhecer um “outro mundo”. Basta “quebrar a corrente do senso comum” e abrir, de vez, a mente e o coração ao bom senso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário