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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

"1000 Trutas, 1000 Tretas"

Meus pais viajaram no último fim de semana e essa proximidade com o meu irmão, somada às recentes férias que passamos juntos, aproximou-nos de forma inesperada. Temos sido, durante esse tempo, o mais perto que já chegamos dos “amigos eternos” que minha mãe sempre quis que fôssemos “naturalmente”. Estava até tentando escrever um texto sobre ele. Estou longe de ser o irmão que o Tulio – esse é o nome dele (e sem acento mesmo) – merecia, sou muito ausente e falho demais por isso, mas, em todo começo de ano, eu prometo mudar. E espero ter chances de conseguir em 2008!
O que sei é que já estava confortado pelas melhoras no comportamento do delinqüente mirim e, acreditando já ter sofrido toda sorte de impropérios que se possa esperar de um adolescente, estive perto de mudar o meu conceito sobre ele. Deixei-o sozinho hoje durante o dia e não acreditei quando voltei para casa à noite: nem um copinho sujo na pia pra eu poder reclamar! Pratos, colheres... tudo (bem) lavadinho e a casa arrumadinha. Nem no meu quarto ele fez bagunça!
Entrei feliz pro banho. “Esse menino cresceu”, pensava. E já tentava formular frases apaixonadas para mais um daqueles meus típicos textos sobre amigos – que ainda não escrevi sobre ele. Quando, “não mais que de repente”, começa o “batidão”! Ouvi, do chuveiro, a campainha tocar e ele atender um amiguinho da rua (não consegui definir qual – mas nem me importei, eles vivem tocando aqui em casa). Acontece que ele saiu por alguns instantes e voltou com alguma coisa nas mãos. Foi tudo tão rápido que eu ainda estava ensaboado quando o martírio começou.
O vizinho – que pode começar a rezar para eu não descobrir quem é – emprestou ao Tulio um adorável DVD: “1000 Trutas, 1000 Tretas”. O show de uns presidiários – não adianta dizer que é preconceito! Rap, pra mim, é coisa de penitenciária! E não são “bandas”, são “facções”, “pavilhões”, “gangues”... – que não cantam, berram ameaças e palavrões que até o meu vocabulário chulo desconhece. Apologia é eufemismo e, Talento, eles nem sabem o que é! Fazem qualquer Kelly Key parecer MPB!
As rimas, riquíssimas, são feitas no melhor estilo “ABCDEFGH”. Nada combina com nada, tudo absolutamente assustador.
Saí do banheiro apavorado: “Pronto! Afro-X está, com a Simony, na sala da minha casa e só a Polícia pode resolver!”. Passados os esclarecimentos, o meu amor fraternal murchou pouco a pouco enquanto eu caminhava, arrastando os pés, triste, em direção ao meu quarto. Fechei a porta e não adiantou. Fui pra cozinha, para os fundos... até pra rua eu quis fugir. Mas, de onde estivesse, conseguia sempre ouvir aquela tortura. Feliz com o meu sofrimento, Tulio sustentava um sorriso de prazer quase sexual e repetia “Relaxa, Caio. Sente o som...”.
Não faltava mais nada. Eu estava no inferno e o capeta gritava, entre viseiras e correntes, de dentro da tevê para me assustar. Mas, como aprendi, o inferno tem porão, e é sempre possível piorar. Com um clique no controle remoto, surgiram legendas na tela. A transmissão da baixaria permanecia inalterada, mas os “versos” das “músicas”, agora, apareciam na parte inferior da tela antes mesmo do capetinha abrir a boca. Não precisou de muito tempo para serem DOIS capetas na minha sala. O vozeirão do meu irmão parecia ecoar dentro de mim. Era o próprio "Karaokê das Profundezas"!
E, só usando das piores ameaças – sim! Eu sou quase tão bom quanto aqueles “cantores” na arte de aterrorizar –, eu consegui “sensibilizar” o coração perdido daquele jovem infrator e o fazer interromper aquela chacina auditiva. Estou corrompido, ofendido, agredido e decepcionado.
IMPRESSIONANTE como irmãos mais novos têm o poder de destruir qualquer amor que a gente tente sentir por eles, não é?!

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