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domingo, 10 de fevereiro de 2008

De baratas, molas e dores.


Essa é uma situação atípica. São três da manhã e eu estou sentado, sozinho, em frente ao computador, escrevendo e esperando o sono me mandar de volta para a cama – mas ele não vem.
Vou explicar como aconteceu – ou está acontecendo – a pior noite de todos os tempos:
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Preocupado com o dia cheio que terei em poucas horas, recolhi-me cedo. Estava cansado e com dores no corpo – sim, sim, dancei “horrores” no churrasco familiar de hoje.
Estava deitado, buscando a melhor posição e “viajando”, como faz a maioria das pessoas antes de “pegar no sono”. Ocorreu-me, então, um pensamento estranho: “o que uma barata come?”. Lembrei-me de alguém contando sobre criações de baratas – “Você põe cem numa caixa hoje e, semana que vem, tem mil!” – e minha cabeça (oca) começou a imaginar essas cem baratas se procriando. Será que uma precisaria comer a outra? Será que não precisam de Sol? E como seria – ai, como eu não presto – soltar mil baratas em um apartamento?
Escolhi um em especial e arquitetei toda a cena. Eu subiria as escadas com uma mala cheia de baratas nas mãos. Abriria a porta e a mala, e jogaria as baratas no chão, tomando o cuidado de fechar rapidamente a primeira, para evitar que elas fugissem.
Estava rindo por dentro e já significativamente sonolento quando ouvi um leve bater de asas. Pensei ser o morcego, que ronda a minha janela há anos e nunca me fez nenhum mal, e não dei muita atenção. Nesse calor, tenho dormido com a janela aberta (no frio também. É melhor para ventilar.). De repente, algo caiu sobre a minha bunda. Senti um peso em mim, como que despencado do céu e, ao me mexer, percebi que “a coisa” – fosse ela o que fosse – movia-se lentamente, na direção da minha cabeça, e começava a subir pelas minhas costas.
Levantei (já gritando) da cama e, sacudindo o corpo, acendi a luz. Concretizou-se o que eu temia: havia uma barata sobre a cama.
A cena pareceu-me tão inusitada que precisei de alguns segundos para acreditar e recomeçar a gritaria. Passado esse tempo, socorri meu travesseiro, para evitar o contato entre ele e o terrível monstro que se aproximava, e chamei por minha mãe e meu irmão. Ela já dormia e ele estava no banho. Ninguém veio me socorrer.
Não tenho medo de barata, juro! Nunca tive. Sempre agi com indiferença em relação a baratas, lagartixas e outros invasores urbanos – exceto sapos! Mas aquela barata era diferente. Ela me havia atacado. Com uma casa inteira para pousar, não o fez sobre o meu corpo em vão. Materializou-se ali, de repente, para me punir pelos meus pensamentos ruins ou coisa parecida – ou você vai dizer que é coincidência eu planejar infestar um apartamento de baratas e uma aparecer, instantaneamente, andando na minha cama? -. Não adiantava. Nada me fazia avançar sobre ela. Fiquei sentado, do outro lado do quarto, vendo-a passear pelo meu edredom.
Quando, enfim, alguém se compadeceu do meu sofrimento, minha mãe apareceu, de olhos fechados, decidida a matar a indesejada e interromper de vez o barulho que eu estava fazendo.
Feito isso, não quis mais dormir no quarto. Aquilo poderia ter sido um sinal, não? Aproveitei a viagem do meu pai para dormir com minha mãe em sua cama.
“Caio, não conta pra ninguém que você veio dormir comigo por causa de uma barata não porque vão rir de você!”.
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Peguei outro edredom, o travesseiro salvo e ocupei o espaço vazio da cama. O colchão é de mola. Quem disse que consegui dormir?
É uma coisa física, ação e reação... não dá pra dormir sobre algo que parece se mover tanto quanto ou mais que você mesmo. A cada movimento, por mais simples que fosse, os pouco mais de “setecentos newtons”, que meu corpo fazia para baixo, encontravam a resistência de outros pouco mais de “setecentos newtons” para cima. É como dormir abraçado a alguém de mesmo tamanho e peso, que se mexe tanto quanto você, e ao mesmo tempo. E o mesmo acontecia com minha mãe, suponho, porque várias vezes eu recebi “newtons” vindos do lado ocupado por ela no ringue.
Tristeza. Acordava a cada cinco minutos, como se algo, abaixo de mim, me empurrasse ou sacudisse. A última alternativa era a sala, mas sofá estava fora de cogitação para alguém que tentava dormir há mais de três horas.
Voltei para o quarto. Troquei o lençol, fechei a janela, dei “aquela conferida” no ambiente e caí na cama. Ai, delícia! Um colchão que, finalmente, obedecia às exigências do meu corpo e se adaptava a ele de forma confortável, apenas absorvendo os impactos e nunca os devolvendo.
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Estava tudo pronto para o tão sonhado “sono dos justos” de hoje quando... câimbra.
Mas será possível? Nas DUAS pernas!
Aquela dor incômoda que “gela os ossos” e nos impossibilita (definitivamente) de encontrar uma posição agradável. Não passa, não diminui e não tem cura. Vai e vem quando quer, e não há nada que se possa fazer.
Quando senti que, para completar o já agradável quadro, minha alergia começava a atacar, levantei!
Não vou me arrastar manco pela casa para assoar o nariz, no banheiro, a noite inteira, como um zumbi não. Não mesmo!
Fiquei tentado a tomar um Polaramine. Tenho um de dose caprichada, que, como qualquer bom anti-alérgico, resolve o problema e ainda “capota” o doente. Mas já fiz isso ontem...
Restava-me a tevê (porque nada é tão ruim que não possa piorar), a internet e um livro que estou louco para ler, mas ainda nem abri.
Ganhou a internet. Precisava dividir isso com alguém. Não queria demorar. A intenção era fazer algo que me desse sono – e existe algo que dê mais sono do que essa luzinha do monitor? –, mas não está funcionando.
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Preciso voltar para a cama! Minha mãe acordou com o barulho do computador e disse que, se eu não dormir, não poderei dirigir. E não aceito que, depois de uma noite como essa, eu ainda precise pegar ônibus de manhã para sair!

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