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domingo, 10 de fevereiro de 2008

McEscravidão

Sempre morri de pena dos famosos McEscravos. Um conhecido já trabalhou no McDonalds e conta os mais terríveis episódios que enfrentou a frente desse posto. Não acredito nessas correntes virtuais sobre a origem da carne dos hamburgers e outras atrocidades, mas, do sofrimento daquelas pobres almas condenadas, eu nunca pude duvidar. É visível a tristeza que aqueles corações carregam. Você já viu algum deles sorrir? Se viu, acreditou no seu sorriso? Aposto que não...
Como o comportamento humano – principalmente no que se refere às desgraças alheias – chama muito a minha atenção, cresci intrigado com aquela considerável parcela da população economicamente ativa do Brasil. Quando criança, costumava comer todos aqueles sanduíches nada saudáveis, mas não tinha ainda certa maturidade para trabalhar essa questão. Cresci e não gostava mais. Exceto pela casquinha (que não existe melhor), não sentia a menor falta daquele lugar. Só que os atendentes dos quiosques (onde são vendidos os sorvetes) são, por si mesmos, sem assunto! Como a função é menos elaborada, eles mal nos olham nos olhos. É tudo muito mecânico e isso justifica um pouco a falta de expressão.
Recentemente, influenciado por más companhias, voltei a me render aos encantos publicitários daqueles enganosos sanduíches. Até McLanche Feliz tenho comido! E, tanto quanto a depressão que me despertam os McEscravos do balcão, me incomoda aquele cofrinho do Hospital do Câncer. Não interessa o valor do seu troco, eles te enchem de moedas e, com o olhar mais triste e resignado de mocinha de novela mexicana, perguntam, naquele tom doce: “O senhor gostaria de doar as suas moedas para o Hospital do Câncer?”. Quem diz NÃO? Qualquer coração se compadece com aquela cena. E nem dá para soltar o famoso “Hoje eu não tenho. Fica pra próxima!” porque as moedinhas, geralmente, ainda estão nas mãos deles nessa hora. Dá um ódio... Já pagamos muito mais do que valem aquelas “porcarias” – revolta! – e ainda precisamos deixar o troco no cofrinho numa tentativa imbecil de parecermos solidários a quem nem mesmo conhecemos!
Por isso, pago tudo com cartão. O mesmo acontece nas Lojas Americanas. Para ser caixa, você só precisa saber perguntar “Posso ficar te devendo um centavo?”. De um em um, já deixei uma fortuna naquele lugar! Mas desenvolvi uma técnica infalível: “Dois e noventa e nove, senhor!”, “No débito, por favor!”.
Recentemente, porém, meu coração piedoso encheu-se de rancor. Ao ser indagado, mais uma vez, sobre as minhas moedinhas e aquela história do Hospital do Câncer pelo rapazinho do caixa, disse NÃO! Foi involuntário. Estava entretido com os movimentos mecânicos da menina que servia minhas batatinhas e, como quem retorna de um transe, respondi seca e inocentemente um “não, obrigado.” que nem reconheci como meu. A surpresa, no entanto, veio depois. Ele olhou no fundo dos meus olhos – o que me arrepiou a espinha –, virou-se e, sem dizer uma palavra, iniciou o atendimento de uma senhora. Não acreditei. Como eles podem ser tão “adestrados”? Arrependi-me de imediato, mas me consolou a idéia de que ele, provavelmente, nem prestou atenção às minhas palavras. Perguntar milhares de vezes a mesma coisa a milhares de pessoas diferentes deve resultar no mais diverso repertório de respostas.
Meu conflito emocional só teve fim quando, pegando a bandeja, percebi a ausência dos guardanapos, catchup e canudinho! Maldoso que sou, logo pensei “Vou precisar beber com as moedinhas, suponho!”. Pedi aos atendentes e, mais uma vez, aqueles olhares me congelaram o já amarelo sorriso com que tentei alguma aproximação amistosa. Agora, não era só ele, a mocinha das batatas também me fuzilava como fazem os pinchers com os carteiros. Sem sequer mover um músculo do rosto ou desviar os olhos dos meus, ela colocou, não muito carinhosamente, o canudo e dois guardanapos na bandeja que estendia em sua direção. Nem do catchup reclamei. Segui, acelerado, para a mesa. E precisei respirar fundo algumas vezes para me recuperar.
Nem o meu humor é tão oscilante – e olha que sou famoso por isso! Eles vão do “nada a acrescentar” ao “saia logo da minha frente” em meio segundo...
Minha mente inventiva busca, desde então, explicações para aquele episódio. Mas a mais aceita, até agora, é a de que é dali que eles retiram o complemento do salário de miséria que recebem.
De toda forma, nunca mais sentirão o cheiro do meu troco. O Hospital que me perdoe! Tenho planos – já antigos – de visitar crianças doentes e velhinhos em asilos num futuro próximo. Pouco adianta, acredito eu, deixar cinqüenta centavos ou um real nessas caixinhas. Além de não confiar em todas essas campanhas assistenciais, acredito que essas pessoas a quem se tenta ajudar não precisam apenas de dinheiro – e nisso essas empresas não pensam! O Marketing só considera cifras, ninguém dá a mínima para o calor humano.
E, agora, é uma questão de honra. Vou descobrir – ou, pelo menos, me divertir bastante investigando – do que sofrem esses infelizes! Poucas coisas divertem-me tanto quanto gente esquisita...

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