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sábado, 22 de março de 2008

Camões

Não sei se é igual com todo mundo, mas, sempre que preciso estudar, arrumo milhões de coisas para fazer. Acabo não fazendo nenhuma delas e estudando menos ainda, porque não fazer nada, geralmente, é a principal prioridade.
Em uma dessas últimas vezes em que busquei distração longe dos livros, passei quase a noite inteira de frente para a tevê. Foram duas novelas, um programa de fofocas, um reality show e, por fim, uns trechos de uma dessas superproduções das emissoras intermediárias. Era uma novela, no mínimo, “diferente”. Não bastassem as (brilhantes!) interpretações daquele elenco de segundo escalão – com todos aqueles que por falta de talento, oportunidade ou, até mesmo, sorte, “quase” fizeram sucesso na principal emissora do país –, tive uma grande e desagradável surpresa: em uma das cenas, um pai de família lutava, para proteger seus filhos, contra um vampiro (juro!). A falta de noção já era suficiente quando, não mais que de repente, o “mortal” deu uma facada no “imortal”, que urrou de dor e morreu. (Silêncio!).
Eu já estava quase rindo, quando, ainda com a faca nas mãos, o “salvador da criançada” deu alguns passos, ergueu a arma e, olhando atentamente para a lâmina suja de sangue, recitou Camões. (Silêncio e estado de choque!).
Eu disse “re-ci-tou-ca-mões”! De verdade... Com direito a “como dizia o velho Camões...” e tudo mais! Meu irmão não entendeu quando eu quis morrer, mas isso chega a ser um crime! Não a morte – porcamente interpretada –, mas essa blasfêmia literária! Quem me pode dizer quando foi que os pescadores-caçadores-de-mutantes tiveram tempo de decorar estrofes inteiras (e grandes) de poesia tão antiga? Porque ele recitou di-rei-ti-nho!
E por que Camões? É algo tão distante da maioria dos brasileiros! Antes ele tivesse assassinado um saci e entoado a Canção do Exílio... ou o Curupira com “Tinha uma pedra no meio do caminho...”! Mas Camões? Imaginei, de imediato, as donas de casa nas favelas ouvindo aquelas bonitas palavras e pensando “Seja quem for, é um poeta!”. Meus pais são classe média e aposto que não saberiam. Por que é que o resto do Brasil deveria saber?
Perdi até o sono! Era tarde e ainda assisti mais da novela, um outro programa e uma mini-série... Como eu ia dormir com essa?
Desde “Vamp” que essas temáticas “sombrias” já não fazem mais sucesso, e esse povo insiste em criar monstros, bruxas, vampiros...
Está faltando bom-senso na tevê, não? Desde o ataque de sopro no coração da Serena e o cabelo novo da Suzana Vieira que não me sinto tão indignado! Saudade do “Desligue a TV e vá ler um livro!” da MTV e, mais ainda, saudade do DIP*!
E tem gente que falava mal do Getúlio...


*DIP era o Departamento de Imprensa e Propaganda criado por Getúlio Vargas, em seu governo, para promover a censura dos meios de comunicação. Está certo que a finalidade era meramente política, mas a idéia é ótima. Tivéssemos um assim e a programação da tevê seria muito menos pior.
E, antes que alguém pergunte, “saudade do DIP” foi piadinha mesmo! Porque, como você bem pensou, nem minha mãe o conheceu!
Espertinho!

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