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terça-feira, 11 de março de 2008

Cuidar do Orkut dos Outros


Noites atrás, o céu quis despencar sobre nossas cabeças e nem as flechas de Tupã explicam o temporal com que fomos presenteados. Era madrugada e minha família vagava sem rumo pela casa conferindo tomadas, janelas e tudo o mais que se deve conferir em situações como essa. Minha mãe chegou a temer um desabamento (e eu só ri para quebrar aquele clima de tensão, porque já tinha pensado nisso!).
Uma seqüência de raios atingiu as imediações da minha casa. Eu acompanhava, sonâmbulo, pela janela, a seqüência das descargas. Relampeava e tudo ficava claro, como se fosse dia, eu me enrolava no cobertor e fechava os olhos a espera do trovão; ele vinha e era possível ouvir os suspiros e lamentos nos outros quartos. Ninguém dormiu direito, é claro, mas não foi esse o único presentinho que me reservou o incidente: o “modem” do meu computador não resistiu a um dos trovões e eu acordei na tarde seguinte já sem internet.
Ótimo! Quem precisa de internet quando se passa o dia inteiro dentro de casa? Já tinha a bateria do vizinho, as piadas da Marlene (indescritível figura!) e a seleta programação da tevê para povoar de alegria os meus longos e (aparentemente) intermináveis dias.
Apesar de atrativas, nenhuma dessas opções conseguiu prender minha atenção por muito tempo. E, antes mesmo do que se imaginava, estava eu cadastrado na “Lan House” do bairro (mentira! eu uso o “login” do Tulio! não ponho meu nome nessas coisas!). Já não tenho mais pudores em admitir o vício que a internet representa para mim, nem tento negar que passo horas no “Orkut” e sempre quero mais. Não sei se é universal, mas eu, pelo menos, me sinto muito mais interessante na versão virtual. Pessoalmente, somos muito instáveis. Hora sorrimos, hora queremos morrer. Determinados movimentos ou iluminações não tão favoráveis podem transformar pequenos defeitos em deformidades irremediáveis. Na “rede”, não!
Perfis virtuais não são nada confiáveis. Geralmente, descrevemo-nos baseados apenas nas nossas próprias impressões, que quase nunca se aproximam da realidade – ou do que “os outros pensam”. Antes de montar álbuns de fotos, selecionamos as melhores imagens (lógico!) e, muitas vezes, ainda cuidamos um pouco delas em programas de edições de fotografias para “potencializar” o que temos de melhor e “maquiar” o que não é tão bom assim. Todo mundo é mais interessante no Orkut, é inevitável!
Frente a frente, poucas pessoas querem saber (mesmo) o que pensamos. A grande maioria delas se contenta com nossos corpos. Pra que falar, não é? Na internet, pelo contrário, alguém que “visita o seu perfil” pode, da mesma forma, querer apenas aquilo, mas corre os olhos, inevitavelmente, por outros dados ali disponibilizados. Cabe a cada um tornar tudo suficientemente atraente para prender, mesmo que por instantes, a atenção dos curiosos.
Então, além das fotos (seletíssimas), sempre me diverti bastante elaborando as frases com que preencheria cada campo do “meu perfil”. Como a me dividir ou classificar cada pedaço de mim. E mudar tudo sempre que sentir que já não sou mais como antes – o que deve acontecer o maior número possível de vezes.
Minhas atualizações, no entanto, têm sido bastante tímidas. Sou daqueles que lêem o que faz o “coleguinha” do computador ao lado e acho que todos se comportam assim comigo. E nesses momentos de curiosidade extrema, tenho percebido coisas interessantes.
A primeira delas é que a Justiça tem todo o direito de proibir determinados jogos nesses estabelecimentos! As criancinhas fazem cada chacina tão real que dá vontade de ligar para os pais delas. Imagina como será quando crescer essa geração de homicidas em potencial!
A segunda é que a população realmente cresce em progressão geométrica. Cresci por essas ruas e conhecia, ao menos de vista, todos os garotos e garotas da minha idade. Mas, agora, eles parecem brotar das esquinas. É “geração espontânea”. Sentam-se dois para conversar e, quando levantam, já são cinco! Não sei onde construíram tantas casas, mas tenho certeza que a população daqui triplicou.
Outra, e não menos importante (não mesmo!), é que é verdade esse papo de que “os novos jovens têm amadurecido mais rápido para o sexo”. Gente, é assustador! Dos quase vinte computadores do (barulhento e abafado – desabafo) ambiente, que estão sempre ocupados, quem não está brincando de “quem mata mais” (a propósito, é esse o nome de um torneio imperdível que o dono está criando para a criançada – leia-se “meninos de todas as idades”, porque tem concorrentes até mais velhos que eu!), está por esses perfis vendo fotos e cobiçando namorados e namoradas alheias. Impressionante como tudo o que fazem começa, termina ou passa várias vezes pelo sexo! As fotos parecem aqueles ensaios sensuais de baixo orçamento, sabe? Nada do “eu, minha mãe e minha irmã no parque”... é de “Eu com carinha de quem quer colinho. Quem se habilita?” pra baixo. Os meninos negociam as meninas: “Eu te apresento pra Tathyelle se você me passar o ‘link’ da Katiúscia!”. E elas não ficam atrás: “Ah não! Nessa foto ele tá ‘bagacinho’ mesmo, mas ele é gostoso que só vendo.”.
E o resultado são perfis divertidíssimos (que eu prefiro ver como uma crítica ao comportamento volúvel da maioria das pessoas): em “atividades”, a mais listada é, sem dúvida, “beijar na boca” – com a variante “pegar geral”. As fotos são em poses deploráveis e roupas pouco recomendáveis. Os funks “arrasam” nas “músicas” e a sessão da tarde “bomba” nos “filmes”. “Livros” nenhum deles lê – ah! você chegou a pensar que seria diferente?
Preciso parar com isso. Essas constatações mexem comigo. Primeiro, eu “morro de rir”, mas depois bate um remorso. Isso deveria ser triste e não engraçado – e é, mas a gente não percebe!
Sinto-me culpado por “caprichar” tanto em coisas tão pequenas. Não chego a mentir nesses perfis, é claro, mas me confirmo como parcela alienada da juventude e me mantenho alheio a esse problema. “Não fazer nada” é omissão, mas “rir” já é de um egoísmo que beira a “sacanagem”!
Mas que esse “fogo” explica o “crescimento populacional” e os nomes que essas mães desnaturadas dão para os filhos justificam a “violência” infantil é inquestionável!
“Tá! Tá bom! Não está mais aqui quem falou!”.

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