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terça-feira, 22 de abril de 2008

CinePrivê

Sabe essas pequenas descobertas que mudam as nossas vidas? Coisas pouco importantes que, de repente, fazem toda diferença nas nossas concepções e conceitos...
A primeira pequena grande descoberta de que me lembro tirou das minhas costas uma dúvida que me atormentou por muito tempo. Era uma coisa simples, mas que ninguém nunca havia conseguido me explicar, e eu precisei perceber sozinho, num desses insights que a gente só tem quando menos espera. Eu queria saber por que “AMBULANCIA” era escrito de trás pra frente na frente das ambulâncias. Eu já havia desistido de perguntar pras pessoas e, em um belo dia, do nada, a ficha caiu! “Pra ver no espelho”, pensei. Nem estava pensando nisso, mas descobri. Nesse dia, escrevi o que considero ser o meu primeiro texto, que conta as dificuldades desse achado. O problema é que, depois disso, estabeleci um novo objetivo pra minha vida àquela época: eu queria porque queria ver uma ambulância pelo reflexo de um retrovisor. Foram meses de muita atenção, até ouvir aquela sirene e encher meu coração de esperanças. Pronto! Eu já podia ser feliz outra vez.
Com o passar dos anos, tive outras descobertas importantes. Algumas mais complexas e interessantes. Mas nenhuma tão excitante quanto a primeira. A última deu-se há poucos dias: descobri que filme pornô tem roteirista! Alguém já ouviu falar de algum roteirista de filme pornô? Porque atores e diretores vivem aparecendo na mídia – cada um mais decadente que o outro, é claro –, mas o roteirista, que deve o ser o mais decadente de todos, ninguém nunca viu. Passei a imaginar a figura de alguém que escreve esse tipo de filme. Na certa, não deve ser uma pessoa comum. Ou pode ser. Não precisa ser nenhum grande gênio para imaginar um “professor-aluna” casual...
Minha vida ganhou, a partir dessa informação, dois novos objetivos: o primeiro é ler um roteiro pornô, e o segundo é escrever um. Será que os roteiros trazem as falas? Algo do tipo:
Mulher entra. Olha para a câmera. Massageia os seios enquanto retira, lentamente, cada peça de roupa e se deita na cama.
Homem entra já sem camisa. Abre o zíper da calça.
Mulher diz “Vem! Vem! Oh! Oh! Oh!”.

Sem contar as historinhas que eles devem se arriscar a inventar para anteceder ou justificar o sexo. Algo como “O entregador de pizzas toca a campainha e a mulher atende a porta de lingerie. Eles conversam, se tocam e...”. Porque pior do que gemer pelado na frente de um tanto de gente em um estúdio de gravação, deve ser ter que fazer isso sem descuidar do texto na ponta da língua.
E quero escrever um roteiro, primeiro para ser inovador – algo do tipo leiturista da companhia de energia elétrica e empregada doméstica ou atendente de drive-thru e motorista faminto –, segundo para monopolizar o processo de criação. Porque deve ser tão simples fazer um filme assim. Eu escolho os personagens, invento os nomes, escrevo as baixarias que eles vão ter que fazer e falar e pronto, sou roteirista. Aí, eu escolho a cor da lingerie, o modelo da cueca, e a roupa que os atores vão usar nos dois primeiros minutos de gravação, e sou, também, figurinista. Posso, ainda, escolher o cenário e ser o diretor de arte. Se escolher os atores, serei o diretor de núcleo... e, por aí, vai. Viu como é simples? Deve dar pra fazer tudo em um final de semana.
E, quando o filme acabar, a tela escurece e começam a subir os nomes. Eu, eu, eu, eu de novo, eu mais uma vez e os atores depois, em ordem alfabética ou de aparição (quem se importa?). Além de massagear o ego e a vaidade, isso deve dar aquele up no currículo de qualquer aspirante a celebridade. E, quem sabe, eu não ingressaria nesse mercado, tão ascendente hoje em dia, e nem precisaria mais me formar!
Ah! Está aí um sonho que eu preciso realizar. Vou começar, logo, a escrever o roteiro e pensar em todas as coisas de todas as pessoas da produção. Só não quero ser ator. Não mesmo! Então, aceito, desde já, currículos com fotos de corpo inteiro. Se você já percebeu que não vai ficar famoso de outra forma, e que estudar “não te contempla”, tenho um mercado promissor para te apresentar!
“Vem! Vem! Vem, delícia!”.

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