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terça-feira, 15 de abril de 2008

Discursos Filosóficos Familiares


Minha avó encontrou – sabe Deus onde – um velho livro de capa vermelha. Não sei o nome, não conheço, mas se relaciona de alguma forma com a Bíblia. Lendo-o, passou a encontrar nele as explicações pra todas as coisas do mundo. Ele é realmente bem grande, mas não o imaginava “tão completo”. As teses filosóficas da vovó, agora, baseiam-se apenas no “livro vermelho que ela está lendo”, e estão cada vez mais mirabolantes e bem fundamentadas.
A última - e mais divertida – tirou, por dias, o meu sossego:
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- Então, Caio, cê viu que eu tô lendo um livro vermelho, não viu?
- Vi, vó! Um em cima da mesa da sala, né?!
- Esse mesmo! Presta atenção, Eliana. Tô falando um negócio sério aqui com o Caio.
- Tô prestando! – mentira! nem tava olhando.
- Então. Lá fala da volta do Capeta! – silêncio – Diz lá que ele voltaria no futuro, muitos anos depois de Cristo, na forma de homem. Muito carismático, reuniria inúmeros discípulos e atacaria, pouco a pouco, a Igreja até destruir ela.
- Nossa, vó. E a senhora acha que ele tá voltando?
Silêncio, suspense e suspiros.
- Eu acho que ele já voltou. Ele já está aí fazendo tudo o que o livro disse que ele faria!
Claro que, falou em Anti-Cristo, em pensei no Lula, na Britney, na Xuxa... até no Bush e na Lacraia! Mas ela prosseguiu:
- Quem é que fica combatendo a Igreja e roubando os fiéis dela? Quem é que diz que espanta demônio? Quem é que ta cada vez mais poderoso? Ele mesmo... Pra mim, o Capeta é o Edir Macedo!
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Dias depois, na cozinha, conversava com minha mãe sobre a tão debatida morte da tal da Isabella. Contava a ela a divertida opinião de uma amiga, segundo a qual, a culpada é a mãe da menina, que até agora não derramou nenhuma lágrima e aparece sempre linda e calma na televisão. Eu até acredito em resignação, espiritualidade, perdão... mas preferia quando a mãe do João Hélio, roxa e descabelada, cuspia nas câmeras gritando pela diminuição da maioridade penal e, de quebra, a adoção da pena de morte para crimes hediondos. Muito melhor imaginar os adolescentes tostando na cadeira elétrica que ter que assistir àqueles dicursinhos morais de quem perde o filho mas não a pose.
A discussão ia bem, até:
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- Sabe que pode ser ela mesmo, né?!
- Hahahaha! Cê também tá achando que ela é culpada só porque ela ainda não fez escândalo?
- Nem é só por isso. É mais por causa dos brincos dela!
Choque.
- Por causa de quem?
- Dos brincos dela, Caio! Você não tá vendo as entrevistas dela não?
Choque.
- Ela troca de brinco todo dia. Em cada entrevista, aparece com um diferente. Agora mesmo, tava com um maravilhoso no jornal.
- E o que é que tem a ver o brinco, mãe?
- Ah, Caio! Não sei... mas se eu perdesse um filho, que Deus nunca permita que isso aconteça, acho que nunca mais nem penteava o cabelo. Agora a outra lá ta que se arruma, ta que troca brinco... nem eu troco de brinco todo dia!
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É de família! Só pode ser...

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