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terça-feira, 15 de abril de 2008

A Estrada

A música romântica começou a tocar. Ele nem se surpreendeu, estava mesmo à espera. Diverte-se em fabricar momentos dramáticos, como quem ensaia para viver fortes emoções. Rapidamente, parecia triste. A introdução instrumental já era suficiente para lhe alterar o humor, o semblante e o comportamento. A voz doce da cantora desconcertava-o por completo.
Soluçava os versos e sentia brotarem as lágrimas. Emocionava-se com facilidade. Imaginava brigas, reencontros, conciliações... era tudo tão real que seu sofrimento também parecia ser. A figura que protagonizava essas cenas, no entanto, não possuía rosto. Era alguma variação da raça humana, com dois braços, duas pernas... tudo direitinho, mas sem rosto, sem traços, sem definição. E como poderia ter mesmo alguma individualidade se nem sequer existia?Parou um pouco. O quase choro cessou. Pensou, pensou, e parou. Voltou a prestar atenção na estrada. Não precisava sofrer por amor se, nem ao menos, o conhecia.

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