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sábado, 10 de maio de 2008

Avó e Alunas

Hoje fui fazer compras com a minha avó. Geralmente, é a minha mãe quem a leva para fazer compras todos os sábados. Mas, dessa vez, ela viajou e eu herdei a regência dessa função. Não gosto muito de “diário virtual”, mas adoro detalhes estranhos de gente aparentemente normal.
Ouvi lamentações durante todo o caminho: minha avó contou n motivos tristes que a fazem, agora, “depender de mim” e quase “destruir” meu início de fim de semana – porque me esqueci de dizer que saí sexta, cheguei às 2 e, às 8, já estava prontinho batendo no portão da casa dela. Mas o mais divertido aconteceu no supermercado.
Descobri que a lista da minha avó não só traz as coisas que ela precisa comprar e das quais não quer se esquecer. Além disso, dita a ordem em que elas devem ser postas no carrinho. Entramos pela seção de vegetais e ela não quis que eu pegasse as bananas, os tomates e os pimentões do fim da lista. Quis que eu a seguisse à risca e começasse pelo leite condensado. A princípio, faz sentido: talvez ela pensasse que eu não seria capaz de colocar as latas e as bananas no mesmo carrinho sem que as primeiras amassassem as segundas. Mas foi assim com tudo.
Tentei me comportar ao máximo. Pensava nos meus pais, que também vão ficar velhinhos, e, por extensão, em mim (será que terei netos tão bonzinhos?), e me mantinha obediente. Até eu passar pela terceira vez na frente dos refrigerantes e os pegar antes do Bombril, furando a fila e quebrando toda a harmonia que aquela seqüência suscitava. Foi um teste pra ver se ela percebia. E como isso não aconteceu, eu comecei a trapacear.
Outra coisa me fez pensar: deve ser estranho fazer compras apenas para si. Sempre vejo a minha mãe usando todos os conhecimentos de mínimo múltiplo comum ao encher o(s) carrinho(s), e minha avó nem se preocupava com isso. Comprou uma manga (UMA!).
Ri bastante das pesquisas de preço que ela fazia. Está economizando, coitada, e juntando dinheiro há anos para quando morrer. Diz que não quer dar despesas depois de morta e insiste em deixar, no banco, mais do que o necessário para ser enterrada sem dar o menor prejuízo a ninguém – como se a preocupação fossem os gastos e não a perda. Boazinha, não? Poderia usar seus 83 anos como prerrogativa para uma vida de extrema fartura e conforto, mas, até nessas horas, pensa nos filhos. E conta de todas as dores até as saudades e desilusões quando sente que está “dando trabalho” – como hoje – com aquele jeitinho de vítima que só as mães sabem fazer.
Amanhã vou almoçar na casa dela – dias das mães – e dormir por lá. Ela mora sozinha e não aceita mais ninguém sob o mesmo teto. Mas tem reclamado tanto do medo que sente à noite, que dividimos a família por escala e eu peguei o domingo.
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Seguindo a linha “confissões de adolescente”, ontem foi o meu primeiro dia no meu segundo emprego – sim! agora eu tenho dois –, e foi ótimo. Eu já havia começado um estágio-iniciação-científica difícil de explicar na Faculdade e sido contratado como professor de crianças no grupo de acompanhamento escolar daqui do bairro. As pesquisas na Faculdade ainda não pegaram ritmo e eu não tinha, até então, nenhum aluno. Até ontem. Mais ou menos por volta do almoço, minha “patroa” – uma antiga professora e vizinha que, não só por agora ser minha chefe, eu amo de paixão – telefonou avisando de duas alunas. A primeira, uma menininha de apenas seis anos que quer aprender a ler e escrever (ah, que gracinha! e eu batendo sempre no peito e dizendo que não queria ter filhos...), marcada para começar nessa segunda-feira – frio na barriga – e uma “um pouquinho mais velha” (12 anos) matriculada no reforço em matemática de sexta série, mas sem professor por falta de compatibilidade do horário.
A princípio, eu só daria aulas para crianças de primeira a quarta série, mas essa era uma emergência. Era o dia de sua quarta aula e, se eu aceitasse, já seria seu terceiro professor. E eu aceitei, lógico. Com medo, confesso, de ganhar alunos nessa faixa e descobrir que não os posso ajudar. A aula, no entanto, foi ótima. Pelo menos, eu adorei.
Cheguei em cima do horário, entrei e fiquei sentado esperando. Ela chegou depois, olhou pra mim com aquela cara de “ai, meu Deus, será que vou ter que dividir horário com esse narigudo aí?” e quase morreu do coração quando soube que eu era o professor. Não me levou nem um pouco a sério (surpresa!), abriu o caderno, o livro e continuou me olhando. Imagino que eu não passe mesmo muita credibilidade. E ela não sossegou enquanto não perguntou minha idade – quando soube, aí é que ficou mesmo eufórica. Eu estava tão nervoso que esqueci de dizer o meu nome; ao fim de uma das explicações, ela disse que tinha uma dúvida – e eu tremi, é claro –, mas ela só queria saber como eu me chamo. Tudo começou com muita cara de irmão mais velho ou coleguinha de série mais adiantada, mas a aula pegou ritmo rapidinho.
Ela é espertinha. Padece do mesmo mal de quase todos os que têm dificuldade com números. Sabe tudo o que precisa fazer, mas mor-re-de-pre-gui-ça! Descobrimos que somos vizinhos, viramos grandes amigos e mostrei logo para ela o meu lado tirano. Enchi a coitadinha de exercícios, fiz uma ou outra piadinha e ameacei todo tipo de castigo caso ela sonhasse em desviar a atenção. Aquele ensino militar que eu conheço bem! Mas foi legal. Já decidi o que vou estudar para a próxima aula – porque a matéria dela é difícil e quero chegar lá com tudo na ponta da língua – e o que pretendo reunir em alguma mochila ou caixa velha com o nome de “multimídia” ou “material de aula” para deixar lá. Coisas simples: régua, espelho, sólidos geométricos, orelha de burro... Aliás, aceito sugestões!

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