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terça-feira, 13 de maio de 2008

"Prestenção!"

Crianças problemáticas são criadas a base de ameaças. Tudo que os pais não conseguem explicar de forma convincente transforma-se em alguma suposição bastante negativa acerca do futuro, e a gente sente até medo de crescer. Se temos um pouco mais de opinião do que se espera para as nossas idades, somos logo diferenciados dos demais e se iniciam as previsões. Do “vai precisar apanhar muito na vida para aprender” ao típico “espere até você ser pai”!
Seguindo a minha sina de “pagar e pagar e pagar língua”, o destino cuidou para que uma das pragas mais rogadas na minha direção se fizesse realidade e, nessa semana, tornei-me professor. Sempre fui estudioso e responsável, mas nunca passei nem perto de “bom aluno”. Questionador, atrevido e exigente, passei pelas listas negras da maioria dos meus professores. Aliás, cheguei a ter problemas sérios com alguns deles, que até hoje me envergonham.
Não concordava com correções, não aceitava picaretagem, não facilitava mesmo! E isso é muito bom e muito ruim. Aquele tipo de postura que te faz ser amado ou odiado – o que nem sempre se dá de forma equilibrada. Talvez por isso, tenha tido, sempre, bem claro para mim, a impossibilidade de lecionar. Sabia que, além de pagar meus pecados todos, não seria feliz. Não tenho paciência. Sinto, muitas vezes, uma vontade louca de agredir as pessoas e preciso me afastar, respirar e contar até cento e cinqüenta.
Ajudava alguns colegas na escola, meu irmão em casa e, às vezes, um ou outro primo. Tenho, até, uma amiga que ajudei durante muitos anos a escapar da reprovação. Mas nada nem próximo de um vínculo empregatício. Até então, eu nunca havia precisado “acordar cedo para dar aulas” ou “preparar exercícios, corrigir provas”... até entrar na Faculdade.
Aquela lenda urbana de que “universitário é tudo duro” é das mais corretas que conheço. E, na falta de dinheiro, a gente começa fazendo tudo de lícito possível (começa!). Fui contratado professor do núcleo de acompanhamento escolar do meu bairro. Estava morrendo de medo, nunca me havia imaginado escrevendo no quadro, fechado em uma sala com dois ou três alunos olhando para a minha cara e levantando a mão para fazer perguntas. Eis que, a princípio, eu seria responsável pelas crianças de primeira a quarta série. Começaria com uma menina de 6 anos, no ciclo introdutório, que já conhece as letras mas tem dificuldades em formar as sílabas. Uma gracinha! Calma, educada, paciente... aquele tipo de criança que a gente espreme, pressiona e nem faz diferença. Mantém-se feliz no seu mundinho. Ainda não sei como trabalhar com ela. É um desafio muito grande para um principiante, eu acho. (Mas ela já leu “bola” na nossa primeira aula!).
Minha segunda aluna, de 12 anos, precisaria de acompanhamento em Matemática. Nosso primeiro contato foi assustador. Primeiro, porque ela não acreditou que eu era seu professor – já é difícil acreditar na minha idade, imagina na minha credibilidade. Segundo, porque não entendi a razão do seu caderno começar no capítulo quatro e ela me explicou que já era o segundo caderno, e que o primeiro terminava no três – estamos em Maio e ela já gastou um caderno de 96 folhas! Ela é inteligente, esforçada. Daquelas que, mesmo quando não sabe, arrisca, tentando acertar. Sabe fazer tudo, só não tem muita segurança. Pressinto que seremos amigos – sim! eu faço amizade fácil.
Hoje, no entanto, precisei cobrir a falta de uma professora e ajudar uma menina mais velha. Foi estranho! Começo a sentir o peso das vibrações ruins que alguns dos meus professores direcionaram para o meu futuro. Acredito – medo de estar agindo como aqueles que eu tanto criticava por se considerarem bons professores tão equivocadamente – que dei uma boa aula, juro! Expliquei os conceitos, dei exemplos, fiz exercícios. Fiz tudo o possível para ajudá-la, mas não consegui prender seu interesse. Explicava “isso é isso. o que é isso?”, e ela me olhava com cara de paisagem, “não sei. não lembro!”. Eu não era assim, disso não preciso me culpar. Meu problema era exatamente o contrário, o excesso de interesse. Mas começo a entender a falta de motivação (de humor, de educação...) que tanto me intrigava. O problema, não como eu imaginava, não é gostar ou não de ensinar, é tentar fazer-se claro, e não saber se está conseguindo. Senti uma pontinha de vontade de dar uns tapas nela (confesso!), mas, mais do que isso, pensei em seus pais, que estão pagando para ela me olhar desatenta. Pensei na professora, de quem ela fala tão mal, que deve sentir o mesmo desapontamento que eu, a mesma impotência acentuada por aquele profundo olhar de indiferença.
Acredito em Deus, em sorte e em iluminações inesperadas, mas, caso nada disso aconteça, ela, provavelmente, afundará em uma prova hoje à tarde e é horrível pensar que, amanhã, ela pode me culpar da forma como culpa a professora do colégio. Não defendo professores, é claro. Na dúvida, a culpa é sempre deles. Mas vi que as provas dadas não eram difíceis e os (muitos) exercícios do caderno seriam suficientes para qualquer aprendizado. Mas ela não fez nenhum. Copiou os gabaritos, porque “ia errar mesmo”... E eu me sinto responsável por ela agora.
É o mau de se pôr do outro lado...
Cresci, droga!

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