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sexta-feira, 27 de junho de 2008

Correria

Estou tendo problemas com o tempo. Não me refiro ao frio, que, inclusive, já mostrou que existe, já provou que manda e já pode até voltar para os pólos. Não estou conseguindo me adequar é ao tempo mesmo. Aquele que o relógio diz marcar, mas, na verdade, só faz passar mais rápido.
Sempre gostei de fazer muita coisa ao mesmo tempo. Na escola, eu sempre fazia as aulas normais e me enchia de outras atividades. Inglês, natação, clube de matemática, teatro... Mas isso nunca prejudicou os meus estudos. Na época das provas, eu largava tudo, estudava até de madrugada e pronto, ia bem em quase tudo. Só que eu cresci com essa idéia de “ai, como é fácil fazer tudo!” e isso tem me rendido alguns transtornos.
No ano passado, enquanto eu me preparava para o Vestibular, estudava em uma escola que não me oferecia quase nada além das aulas comuns. A única atividade extra-classe eram umas aulas de aprofundamento em determinadas disciplinas, e, como eu não suportava a idéia de ir embora com todo mundo assim que tocava o sinal, eu comecei com História, Geografia e Português, passei para Redação e, como ainda tinha uma tarde livre, Química e Biologia. Por que eu fazia aprofundamento nessas últimas eu não sei, mas adorava voltar para casa tarde todos os dias. Aliás, eu ainda venho da mentalidade patriarcal que acha que homem tem que sair cedo e chegar tarde. Mas dormir bem, é claro!
Meu resultado na primeira etapa não foi o que eu esperava – aliás, não foi o que ninguém esperava – e não havia mesmo como ter sido. O que eu não tinha de ocupação, eu compensava com saídas, festas, cinemas e internet. Claro que, sabendo disso e morrendo de medo de não passar e ouvir essas verdades até os meus últimos dias, eu estudei, para a segunda etapa, mais do que estudei na minha vida inteira. E valeu a pena, é lógico. Felizmente, eu cheguei ao paraíso das atividades extra-curriculares: a Universidade.
Disse, desde as provas da segunda etapa, que, depois daquela maratona, eu só estudaria novamente para um concurso público, ao final da faculdade. Até porque eu cresci ouvindo que só os cursos exatos são difíceis. E nunca achei isso ruim não. Preguiçoso que sou, sempre foi um alívio pensar assim. Doce ilusão. Hoje, eu não sei se vivi na mentira ou se sou burro mesmo e “quase morro” com um curso fácil, em que todo mundo tira A sem fazer o menor esforço. Oh, Deus! Que eles tenham mentido para mim, amém.
As aulas de Direito parecem, na verdade, a leitura feita pelos professores de um imenso índice de um livro que não acaba nunca. Eles não explicam como na escola. Falam um pouco sobre cada assunto e esperam que você aprenda (todo) o resto em casa, lendo. Como se a função deles fosse só “orientar” ou “direcionar” o nosso aprendizado. E, se é, não deveria ser. A cada aula, páginas são somadas às nossas listinhas de “leituras imprescindíveis” e, a essa altura, nem que eu não durma mais, não a conseguirei completar. E, se existe algo de que eu não abro mão na vida, são as minhas oito horinhas diárias de muito sono. O horário noturno das aulas é uma vantagem. O dia rende muito mais quando se estuda a noite. Quando acordo cedo, como tanto tenho feito, faço, muitas vezes, um trabalho inteiro (ou leio um livro completo!) em um único dia. A programação da TV só fica boa depois das 18 horas, e isso coincide com as minhas despedidas e os pezinhos na estrada. Quando estudava de manhã, dormia depois do almoço e, lógico, sempre assistia a uma novelinha ou outra (ou a todas, porque eu adoro!). Hoje, só matando aula. E só o faço em dias de últimos capítulos!
Prometi que, na faculdade, eu não faria nada além de estudar. Pelo menos, até eu ter certeza de que era possível fazer de tudo um pouco sem ter minhas leituras (digo, meus estudos) prejudicadas. Mas, logo na primeira semana, fui eleito representante de turma. Não me candidatei, juro. Mas fui quase “aclamado” graças à minha cara de desocupado. E eu adoro ser eleito. A qualquer coisa que seja! Falou que é eleição, o meu ego já começa logo a se contorcer. E, vaidoso e irresponsável, eu não só aceitei como, ainda, me tornei o vice-presidente do conselho de representantes de turma, ou seja, o quase rei dos desocupados. E não nego que adoro. Essas coisas de representatividade combinam muito comigo. Adoro movimentações, discussões e responsabilidades. Tenho dado o melhor de mim e meu trabalho vem sendo reconhecido – já fui convidado até para trocar de sala, mas já chegar lá como representante também! Acontece que isso demanda muito tempo. Mesmo. E me faz perder algumas aulas – oh, céus, que tristeza!
Outra coisa que o meio acadêmico oferece é a Pesquisa. E, como já dava para imaginar, estou envolvido em uma. Por enquanto, ainda não tive uma atuação muito importante, mas não por culpa minha. Estou aprendendo a desenvolver a tolerância quanto à burocracia que rege esse mundo e conhecendo muita gente. E, só por isso, já vale a pena sacrificar algumas horinhas. É uma das coisas que pretendo continuar a fazer. Gosto de escrever, quero publicar alguns artigos, e espero estar no caminho certo para isso.
Seguindo a iniciativa de “enfiar o meu nome em cada cantinho daqueles prédios”, eu fui participar, nesse corrente mês, do conselho editorial do Voz Acadêmica, o jornalzinho da faculdade, feito pelo, com e para os alunos. Logo no ultimo mês de férias, em que se concentram todas as provas e trabalhos possíveis, eu consegui ser suficientemente “esperto” para assumir mais um compromisso. São textos e mais textos que chegam, diariamente, ao meu e-mail, para que eu leia e opine. Além de reuniões e discussões. A vantagem é aprender como as coisas funcionam, mas meu desejo mesmo é participar do Voz como autor no futuro. Quando as responsabilidades realmente apertaram, eu pensei mesmo em abandonar o Conselho, mas insisti. E recebi um e-mail, dia desses, de uma das Diretoras dizendo que “é de conselheiros competentes assim que o conselho precisa”. Nem é só pela vaidade, mas é suficientemente gratificante para eu querer seguir em frente, não? Essas pequenas manifestações de reconhecimento são a minha perdição. Anestesiam-me e quase me esqueço dos downloads de páginas e mais páginas que essas mensagens encorajadoras costumam acompanhar. Estúpido!
Durante as manhãs e tardes, além dos estudos, da pesquisa e de todas as minhas atividades acadêmicas, estou dando aula. Comecei com Português e Matemática para crianças em um grupo de acompanhamento escolar aqui do bairro. A faixa etária dos alunos começou a aumentar e, quando vi, já tinha até uma aluna em Física! Achei que seria mais difícil. Não pelas matérias, que, quando acho necessário, até estudo um pouquinho para não passar vergonha, mas pela paciência, pela tolerância e por todas aquelas qualidades que só algumas mães têm e, claro, das quais eu nasci desprovido. No começo, foi um choque mesmo. Mas estou pegando o “jeito”. Agora, já dou aula, também, em um outro grupo, já de outro bairro, e tenho alunos mais velhos. Passei a última semana estudando Geografia com um menino precisando de nota. Menino por pura bondade minha, porque ele está no terceiro ano e, acho, tem a minha idade. É estranho ser chamado de “professor” por uns marmanjos assim, mas eu até gosto. Comecei com Geografia e já ensinei até Química por lá (e que tenha sido a última vez!). Tenho uns aluninhos problemáticos, desses que descabelam os professores (e descabelam mesmo), mas, com eles, eu exerço toda a minha falta de modos. E dá certo!
Com uma vida intelectual tão atribulada, é de se esperar que eu esteja cada vez mais sedentário. A ansiedade que o excesso de atividades me causa ainda contribui para isso. Estou engordando a olhos vistos (por enquanto, ainda não estou incomodado com isso não. gente gorda é que é feliz!) e minha única atividade física vinha sendo os quatorze andares de escada (ou seja, 286 degraus) que subo e desço três vezes por semana – 572 calorias para subir e 286 para descer, 858 no total! Até eu começar a dançar. E, dessa vez, não é funk em cima da mesa não, é dança mesmo, de verdade! Com toda a pompa e circunstância. Estou fazendo dança de salão aos sábados, há uns três ou quatro sábados já. Por enquanto, não posso dizer que estou “amando” porque o cansaço tem sido fator determinante nisso. Depois de uma semana inteira de muita presa, tudo o que eu quero, no sábado, é dormir. Mas não... cinco, seis, setioito! Acho que, com calma e disposição, eu aproveitaria muito mais. Pressinto que vou gostar porque já me surpreendo, várias vezes, dançando sozinho, tentando entrar no ritmo e marcar direitinho qualquer música que ouço. Noite dessas, eu dancei quase um bolero inteiro sozinho no saguão de um prédio, num desses devaneios de gente exausta.
Minhas férias começam em dez dias (depois de três trabalhos, um debate, um seminário, duas provas e uma avaliação surpresa, que eu sei que vai acontecer, mas não sei como vai ser), e já tenho inúmeros planos para ela. Descansar, a propósito, é o ultimo deles. Estou escolhendo cinco livros para ler e pretendo escrever um artigo (para publicar em um futuro que pode levar anos, não estou me preocupa isso agora). Além disso, completarei dezenove anos e, lógico, não posso deixar a data passar em branco, nem em verde de novo! Estou tendo e desenvolvendo idéias para uma comemoraçãozinha, nada muito grande. Mas eu adoro festas e tenho a adorável mania de pensar em cada detalhe com muita antecedência. E a minha (in)feliz criatividade não me permite, é lógico, fazer algo comum. Logo, será temático e eu precisarei de, pelo menos, uma semana só para a decoração.
A escola de dança vai oferecer umas oficinas de dança nesse período e, para não me arrepender (e por ódio de não poder fazer a de tango, que vai cair no exato dia do meu aniversário), acho que não vou me inscrever não.
Quero poder, principalmente, nesse tão esperado mês de folga, dar muita atenção aos meus amigos. Como eu, eles não têm tido muito tempo, e sinto falta disso. Falta das tardes que passávamos juntos no colégio, das aulas que matávamos nos shoppings da vida, e, principalmente, falta de sentar e conversar. Sem um livro nas mãos, sem uma prova no mesmo dia, sem uma mochila cheia de xérox. Deitar no sofá, com pipoca e sorvete, sem ter a menor pressa de levantar. Sabendo que não há nada a fazer, e que o tempo, enfim, não faz mais a menor diferença.
O semestre que vem, eu não sei como vai ser. Mas, especialmente nesse Julho (com letra maiúscula porque eu nunca esperei tanto por férias como agora), nem que seja por uma única semana, eu vou deitar e, sempre que pensar em alguma coisa pendente que, por algum breve instante, possa me preocupar, vou fechar bem os olhos, abraçar os cobertores e esperar a lembrança passar.
Porque eu sei que crescer é mesmo assim. Mas ando querendo fingir que esqueci!

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