Páginas

domingo, 20 de julho de 2008

Dezenove.

Completei dezenove anos.
Não é nenhuma idade especial demais, nem trouxe mudança alguma. Ter dezenove anos é só ter feito dezoito há mais de um. Os dezoito, sim, mudam as nossas vidas. Ganhamos passe-livre para a vida noturna, podemos dirigir... Somos, enfim, “maiores”. E essa divertida passagem é um momento muito gostoso. Os dezenove não. Já somos adultos, ou devemos ser. Não há mais transição ou adaptação a uma nova condição. É aceitar e seguir em frente. Você cresceu e não dá para voltar atrás. Sabe aquela vida nova que eu planejava para o futuro? Deveria ter comemorado um ano já.
Na proximidade da data, eu tive uma crise existencial, confesso. Sou sedentário desde criancinha, não tenho uma alimentação saudável, não faço exames médicos regularmente. Não posso, portanto, esperar ter uma vida muito longa. Não vou chegar aos oitenta e sei bem disso. Sendo assim, o primeiro quarto da minha vida já se foi. Foi! Não volta mais. Não tem mais jeito.
Em datas assim, não dá para não refletir sobre o tempo. Ele tem mesmo que passar, mas será que eu estou sabendo lidar com isso? O que é que eu levo desses primeiros vinte e cinco por cento da minha vida? Será que eu fiz um quarto do que gostaria de ter feito ou estou deixando acumular? E não há nada mais depressivo na vida que pensar sobre ela!
Meus primeiros dezenove anos poderiam ter sido mais aproveitados, e é essa a conclusão mais comum a que se chega nessas reflexões. Não chego a me arrepender de nada, mas acho que poderia ter ousado um pouco mais.
Na escola, que sempre foi a minha principal atividade, posso respirar o doce prazer da missão cumprida. Posso não ter sido a criança mais feliz e mais “cheia de amigos” da minha geração – e não fui mesmo! -, mas, em notas e comportamento, eu nunca deixei a desejar. Pelo contrário, estive sempre entre os melhores alunos em todas as escolas em que estudei. Ponto para mim. Meu relacionamento com os colegas é que nunca foi dos melhores. Nessa época, eu achava bonito “ter gênio forte”. Tivesse descoberto antes a tolerância, pouparia sofrimentos e seria, hoje, diferente. Não sei se melhor ou pior, mas fruto de outras tristezas que não essas.
Na família, tive várias e diferentes fases. Ora mais próximo e participativo, ora mais afastado. Sempre crítico e prestativo, mas visto como metido e debochado. Não gosto de muitas pessoas em todos os meios que freqüento e, na família, não poderia ser diferente. Pequenos desentendimentos que viraram grandes distâncias e simples faltas de afinidades que criaram abismos entre algumas pessoas e eu. Não chego a odiar ninguém, é claro. Mas, saudade, por exemplo, eu só sinto de alguns. Cresci ouvindo minha mãe me obrigar a amar todos os meus primos e idolatrar os tios. Família, para ela, é tudo. Concordo sobre sua importância. É, sem dúvida, a primeira e, talvez, única certeza que temos desde nascidos. Apenas reconheço a dificuldade de se conviver comigo. Melhor pessoas distantes unidas, mesmo que bem de longe, por um sentimento de fraternidade, que parentes próximos que se odeiam por conta da convivência.
Amigos, eu sei que fiz! Conservo, comigo, os melhores que já conheci. Sejam os de infância, os da escola, os da família, os de agora... E, a cada ano, percebo pequenas (ou grandes) mudanças nesse grupo. A cada aniversário, surgem novas carinhas, novos sorrisos, que nem sempre se repetem no seguinte. É aquela velha história de que “muita gente passará pelas nossas vidas, mas só as realmente especiais nela permanecerão”. E tem sido assim. Meus amigos antigos continuam comigo, e, até mesmo aqueles que a distância e as circunstâncias insistem em afastar de mim, eu sei que continuam meus. Para curar a falta que fazem esses amigos que o tempo leva, o mesmo tempo traz outros, novos. Pessoas que nos conquistam de imediato. Não sei se é a maturidade ou a experiência das conflituosas relações que já tive, mas, às vezes, deixo-me levar pela intuição. E ela me manda seguir sempre que reconhece uma alma carinhosa.
Emagrecer, praticar esportes e estudar não apenas nas vésperas das provas continuam objetivos inalcançáveis. Então, só falta o amor. Esse, eu idealizei, eu criei, fantasiei, viajei na maionese, mas não conheci não. Nem de longe, eu acho. Está mesmo cedo, eu concordo. Mas sinto que não perceberei quando, enfim, chegar a minha hora, tamanhas são as minhas angústia e espera. Não vai ser nada do que eu imaginei. Sem primeira-vista nem sininhos nem nada parecido. Talvez eu acorde, em uma manhã qualquer, de sol ou de chuva, e perceba que esteve tudo diante de mim todo esse tempo, só me faltou atenção. Ou talvez não. E eu faça bem tudo o que me dispuser a fazer, mas saia dessa vida sem ter amado verdadeiramente. Nem todo mundo nasce para o amor...
Acredito que o que fiz de melhor todo esse tempo foi planejar. Pensei muito, tracei metas, criei enredos. Agora, tenho os próximos três quartos para realizar tudo o que previ. Perdi muito tempo desenvolvendo apenas a teoria, mas tive a sorte de perceber isso cedo.
Quem sabe, nos próximos dezenove, eu não “boto pra quebrar”...

Nenhum comentário:

Postar um comentário