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quinta-feira, 24 de julho de 2008

Informações aos Pacientes


As bulas de remédios são divididas entre a parte que se destina aos médicos e farmacêuticos e aquela que deveria ser compreendida pelos pacientes, usuários dos medicamentos.
Essas informações técnicas são bem específicas e escritas em um dialeto que só parte da população é capaz de entender. Mesmo porque é só uma parte da população que realmente vai ler aquilo.
As informações ao paciente já são mais gerais. Apresentam vocabulário superficial, sem grandes aprofundamentos. Coisas como “o que pretende combater”, “como conservar” e por aí vai. A única parte importante – ou, pelo menos, mais emocionante – dessas bulas chama-se “contra-indicações”. Importante porque serve como uma “entrevista”, ou um “jogo de perguntas e respostas para seleção de pessoas”, que te diz, ao final de tudo, se você pode ou não fazer uso do tal fármaco. E emocionante porque, pode conferir, a gente sempre acha que não pode usar.
São tantos nomes, tantas doenças, tantas coisas tão desconhecidas...
Hoje, eu li a bula das minhas pastilhas para garganta e preciso dividir com alguém:

“... é contra-indicado a pacientes que apresentam hipersensibilidade a qualquer componente da fórmula ou a outros anti-histamínicos.”
“... também é contra-indicado a pacientes que apresentam deficiência da função hepática ou renal, pacientes com glaucoma de ângulo agudo, hipertrofia prostática com formação de urina residual, epilepsia, síndrome QT longo congênita, bradicardia, hipomagnesemia, hipocalemia, feocromocitoma, arritmias cardíacas, ataque asmático agudo e a pacientes diabéticos devido à presença de açúcar entre os excipientes.”


Só por aí, já dá para ver que é bem restrito o público a que ele visa atender, não?
É interessante perceber que eles já começam falando da “hipersensibilidade aos componentes da fórmula”. Leitores espertos que somos, corremos para a parte da “composição” e... entendemos? Deveríamos entender? Difícil saber seu eu sou hipersensível a “cloridrato de difenidramina” quando eu não faço nem idéia do que isso seja. Eu posso ser e não saber. Ou descobrir da pior forma.
O que mais me incomoda nessas bulas é isso: os nomes que eles usam. Como eu vou saber se sofro de “bradicardia”? O que – oh! Deus! – significa “feocromocitoma”?
Será que eu deveria ir a um médico?

Doutor, na verdade, o que me aflige é uma insuportável dor na garganta, mas já comprei uma pastilha. Só quero saber, mesmo, do senhor, a medida do ângulo do meu glaucoma!

A cada bula nova que leio, descubro doenças que ninguém imaginava existirem. Impressionante como, a todo momento, a vida oferece uma passagem pra morte a todos nós.
Só muita dor foi capaz de me encorajar a correr o risco e chupar uma das pastilhas da caixa. Aliás, já estou na segunda. Acertou quem disse que elas são horríveis, mas eu gosto de remédio. Na verdade, eu gosto de ficar doente. Coisa de gente carente esquisita.
Espero melhorar rápido, mas estou preocupado com uma coisa: nas “reações adversas”, consta que eu posso sentir sonolência, vertigens, secura na boca, náuseas, vômitos, sedação, diminuição da secreção do muco, constipação e retenção urinária. Se eu não der sorte, e sofrer de tudo isso, precisarei de tantos outros remédios e tantas outras bulas, que eu nem sei...

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