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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Titia é o caralho.1

No centro do palco, olhando a platéia.
Olha! Eu não sei quanto a vocês, mas eu acredito no amor.
Pausa.
De verdade. Sou uma lady e não vou dizer a minha idade, é claro. Mas venho de uma geração que cresceu ouvindo as histórias dele. As minhas amigas todas se ajeitaram. As da escola, as do trabalho, até aquelas minhas primas gordas do interior, vocês conhecem?
Tá certo que as primas não saíram ganhando não, mas tão jogando, né?!
As amigas também penaram um pouquinho. Chutaram pra fora, tentaram consertar no escanteio, rolaram no chão para pedir pênalti...
Silêncio.
Você percebe que uma mulher está desesperada quando compara casamentos alheios a partidas de futebol!
Silêncio outra vez.
Eu ia dizendo dos divórcios das minhas amigas, não? Então... Deu errado, tem que acabar, não é não? Ficar sofrendo com marido igual às primas é que não dá. Ou dá, não sei!
Voz de choro.
Não sei mesmo...
Pausa. Recupera-se.
Mas eu já me acostumei. Nasci e cresci sozinha, morrer não vai fazer diferença.
Acontece que eu sou “antiga”. É! Sou ultrapassada, sentimental... E não sou da roça igual às primas não, juro! Nasci na cidade, em maternidade e tudo. O povo, hoje em dia, é que é muito moderno.
Anda, lentamente, pelo palco, gesticulando.
Na verdade, não é coisa nenhuma, mas finge ser que é uma maravilha. O povo quer amar do mesmo jeito, mas inventaram de “ficar” para facilitar.
Agora, eles partem o amor. Um cineminha com um, um jantarzinho à luz de velas com outro... e sexo, que é bom, com todo mundo!
Assim é fácil. A gente pega só a parte boa dos relacionamentos. E, cada hora, com um diferente.
Pára de repente. Eleva o tom de voz.
Mas e a parte chata, gente? E a parte chata?
Retoma o tom normal.
Tudo que é muito bom é incompleto. Saca Yin Yang? Então... funciona assim. Para ser bom, precisa ser ruim também. Até mesmo para ter graça! Tem que ter ciúme, briga, discussão de relação. E reconciliação também, pra ser gostoso.
Mas não! O povo não quer não. E, os que querem, já se ajeitaram para lá. Só eu sobrei!
Todo mundo fala pra eu não me preocupar, que as coisas se acertam no fim. Que fim?
Pausa.
Morta, eu não vou querer homem mais não, meu bem.
Anda pelo palco.
Dizem que eu estou apressando as coisas.
Força a voz, como a ridicularizar o que diz.
Que a gente só encontra alguém quando não está procurando ninguém.
Grita.
Mentira! Mentira, mentira, mentira e mentira!
Retoma o tom. Ajeita o cabelo.
Isso é papo de quem já achou e não admite que estava era caçando mesmo! Porque tava. Ninguém esbarra no amor da vida fazendo caminhada não. Nem na fila do banco, no ônibus, comprando pipoca no parque municipal...
Ou esbarra, não sei.
Volta a gritar.
Porque, se existe alguém que não sabe na-da-de-a-mor, esse alguém está aqui hoje.
Retoma o tom.
Conversando com vocês...
Pausa.
Ainda assim, uma coisa, eu sei: a verdade mesmo é que a gente só pára de procurar quando encontra!
E eu procuro mesmo! Nem vergonha disso eu sinto. Se olhar, eu jogo o cabelo... se olhar demais, eu pisco... e, se responder, ai meu Deus, me jogo inteira! Mando beijo, telefone, endereço...
Congela, levanta uma mão espalmada e canta, enquanto desliza a mão que levantou pelo corpo.
“Porque eu sou feita pro amor da cabeça aos pés, e não faço outra coisa do que me doar...”.
Recompõe-se.
Eu quero casar, gente!

Continua...

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