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segunda-feira, 28 de julho de 2008

Velotrol, iPod, Laptop e Reumatismo

Crianças são seres difíceis de se conviver. Tenho uma tia que diz que “só as pessoas boas são capazes de gostar de crianças”. Acho que isso me exclui. Não que eu as deteste. Eu até não viveria com uma, confesso, mas é simplesmente porque não as consigo suportar por muito tempo.
Não é preciso muito para ser criança. Elas podem ser feias e nunca é culpa delas. Podem ser doentes e, neste caso, são, geralmente, ainda mais queridas e mimadas. São os únicos seres que, quando não simpáticos, ainda ganham a boa fama de “espontâneos”. E se elas forem gordas? Ótimo! O que pode ser mais “gute-gute” que uma criancinha bem “rechonchuda”!
Ser criança é quase ter um “passe livre” para a felicidade. Estar livre de cobranças, de padrões, dos olhos da sociedade. Só que elas confundem essa liberdade extrema e “saem da linha”. Qualquer direito traz um dever. E o preço dessa “vida boa” não chega a ser tão caro, mas é fundamental: só o que se exige de uma criança é educação.
Não estou falando daquela educação aclamada pelo “lugar de criança é na escola”, mas da educação primeira, aquela que quer dizer “respeito”. A rara capacidade de ouvir uma ordem e obedecer. O fato de elas estarem acima de todos no quesito “liberdade” é o mesmo que faz delas a base da “pirâmide hierárquica” da responsabilidade.
Toda criança deveria respeitar os mais velhos. Claro que não é fácil. Idade nunca foi sinônimo de discernimento. Mas, ainda assim, tudo seria mais fácil se isso fosse possível. E parece que já foi. Nunca saberemos se é verdade ou mentira, mas os mais velhos que nós têm histórias fantásticas “dos tempos deles”.
O problema de hoje é a informação. As crianças são inseridas no mundo globalizado cada vez mais cedo. Assistem a televisão, ouvem rádio, têm acesso a internet. Tornam-se seres pensantes muito cedo; desenvolvem – ou herdam e passam a defender – opiniões formadas sobre quase tudo, e amadurecem mais jovens. Rapidamente, sentindo-se “quase adultas já”, elas passam a questionar a autoridade dos mais velhos. E é triste ver que isso é natural.
Dá uma preguiça de ter filhos... Imagino uma menininha de cinco anos, toda maquiada, contestando todos os meus “nãos”. Ou um menininho, com pouco mais que isso, discutindo comigo pelo celular. E eu precisando explicar – sem sucesso, é claro! – “não, tesouro, o papai está fazendo isso para o seu bem”! Já é tão difícil dar “satisfações” aos pais, quem dirá aos filhos!
Se está difícil conviver com elas, também não deve estar sendo fácil ser criança nessa nova realidade. A “emancipação social” é vantagem e desvantagem, basta mexer o pescoço e observar de outro ângulo. Imagino que elas estejam pulando uma fase da vida, a infância, e nascendo já adolescentes. Na adolescência, são adultas, geralmente inconseqüentes. Na idade adulta, velhos cansados e doentes. E, quando o tempo realmente pesar, o que serão? As crianças que não foram?
Talvez seja tempo de voltarmos todos para o chão. Darmos, então, novos primeiros passos, para reaprendermos o prazer que é andar devagar. Depois, a gente corre. Há tempo ainda...

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