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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Não voto em você, obrigado!

Já faz algum tempo que a política virou piada no Brasil. Mas, de piada boa, a gente não se cansa de rir, e acaba deixando seguir.
Eu gostaria de escrever, indignadamente, um texto sobre o absurdo que são as eleições para os cargos “menores”, como vereador e deputados. E eu teria muito o que dizer e inúmeros exemplos a citar. Mas não há quem já não tenha se cansado de tudo isso. É piada boa e velha sim, mas, nesse caso, uma audição um pouco mais atenta preenche de tragédia o que, antes, era muito divertido. Não tem graça não, gente. Por incrível que pareça.
Adoro essas propagandas políticas. Mas só essas! Vereadores e deputados fazem meus dias mais felizes. Quem nunca rolou no sofá vendo aquelas figuras indescritíveis sorrindo, tímidas, para a câmera enquanto um locutor diz algo como “pela saúde e educação, fulano tem a solução”? Assisto desde criança. Em uma fase mais sádica da vida, cheguei, mesmo, a comprar pipoca, muita pipoca, e comia todas as noites, rindo, com meu irmão, e comentando. Acontece que eu cresci e minha consciência também. Continuo achando engraçado, é claro. Mas, agora, me dá remorso rir disso. Acho que acordei para o fato de que a situação é triste, e rir não resolve nada.
Eu poderia, também, seguindo essa mesma linha, criticar o processo pelo qual as pessoas lançam candidaturas junto aos partidos políticos brasileiros. Como a Gretchen pode querer ser prefeita e alguém apoiar esse tipo de idéia? De onde vêm enigmáticas figuras como o “Vovô do Rock” ou o “Pinduca das Ambulança”?
Um vigarista do meu bairro está tentando ser vereador. E o pior: pelo partido com que eu tinha menos implicância. Não sou partidário e estou longe de ser, mas, nesse, eu quase queria acreditar. E está, lá, ele. “Clamando” por “Renovação”! Como alguém que nunca trabalhou e viveu uma vida inteira alimentando-se de pequenos golpes e trapaças filia-se a um partido e lança uma candidatura? Será que nem os antecedentes criminais são levantados nesse processo?
Não sei, mas partidos políticos devem funcionar como os clubes. Você compra uma quota, paga pela confecção da carterinha de sócio, mais uma taxa de manutenção e pronto.
Para essa eleição, os marketeiros prepararam uma surpreendente inovação. Algo que já vinha sendo utilizado há algum tempo, mas, agora, ganhou indescritível força: os carros. Não só os grandes carros, que trazem o candidato em cima, acenando e discursando, nem os carros de som, que sobem e descem as nossas ruas cantando promessas, mas os carros disfarçados de folhetos. Não bastasse toda a poluição que representam os outdoors e “santinhos” que distribuem por aí, agora, aprenderam a encapar os carros com adesivos de divulgação. Não só nos vidros, como na carroceria também. Uma descoberta! Assim, os carros passeiam pela cidade e divulgam nossos brilhantes candidatos.
Ficam bonitos em engarrafamentos. É o vislumbre do ideal democrático! Dá uma sensação de “competitividade”... aquele tanto de Antônios, Robertos e Marias... atrás, na frente, dos lados. Para onde se olhe, há, sempre, um sorriso constrangido. E constrangedor, como não podia deixar de ser.
Se eu pudesse, ainda teria muito a dizer sobre o porquê de sermos assim, tão indiferentes. Discutiria as reais funções de um político, o que eu espero dos meus candidatos e a importância do que eles deveriam fazer e não fazem. Como tudo, hoje em dia, é lugar de política, eu poderia, até mesmo, lançar uma candidatura. Você já tem em quem votar? Porque eu sou maior de idade, elegível e estou louco para mudar de emprego. Postaria boas fotos, abraçando crianças, subindo morro, estudando...
Mas, hoje, eu não quero nada não! Está tarde e preciso dormir. Acabo de chegar de um posto de gasolina onde aguardei, na fila, ao lado de um desses “carros-eleitorais”. Um slogan simples, como suponho ser toda a campanha, dizia: “Vote certo. Vote Juvenal!”. Ao lado da foto de um velhinho simpático, mais velhinho que simpático, mas daqueles de que sentimos vontade de cuidar. O carro não estava muito enfeitado não, nem o partido era conhecido. Eu nem me sensibilizaria com a falta de recursos da campanha se, em uma análise mais detalhada, não tivesse reconhecido o motorista. Conhecia-o de algum lugar e demorei alguns instantes para me lembrar de onde. Dali mesmo, do posto. Do posto, do vidro, do carro. Era o próprio Juvenal. Dessa vez, ainda mais velhinho e menos simpático do que nunca, mas, ainda, castigado pela vida. Usava um “boné-brinde”, que devia trazer, escrito, algo como o nome de uma drogaria ou casa lotérica, e uma jaquetinha grossa. Era tarde e as últimas noites têm sido bem frias.
Não sei se era campanha o que ele fazia até aquele horário, mas fiquei com pena. É triste ver a falta de “preparo” de alguns. Principalmente, se considerarmos o excesso de outros. A democracia popularizou demais o acesso aos cargos públicos e - chamem-me do que quiserem – quanto mais popular uma coisa, maiores suas chances de não funcionar.
Não vou votar em você não, Juvenal! Mas, hoje, antes de dormir, vou rezar para o calor chegar logo. Na sua idade, e em prol do povo que você quer representar, o melhor é não facilitar, ?!

Um comentário:

  1. =O

    tô chocada! Você escreve muito bem. Parabéns pelo seu blog.

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