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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Referências

Ligaram, hoje, de uma loja de roupas querendo falar comigo. A pressa em que eu estava, somada ao ódio que eu sinto de (todo e qualquer) telemarketing, lustraram os bicos das minhas chuteiras, para que eu atendesse já com um bom pontapé!
E, claro, eu desliguei quase chorando. Eu sou idiota e me emociono com coisas simples. Não choro em enterros (gente, é estúpido chorar por quem já morreu!), não choro de dor, não choro em finais de relacionamentos... sou bem frio para essas coisas. Choro, muito de vez em quando, de raiva – ah! eu até espumo pelo canto da boca nessas oportunidades.
Mas é só tocar uma musiquinha romântica, ou passar um filme bem água com açúcar... que eu me desmancho em lágrimas. E poucas coisas acabam tanto comigo quanto pequenos gestos – dos meus amigos geralmente. É uma mensagem carinhosa no celular, um “comi, achei que você ia gostar e trouxe um pra você”... choro litros!
E o que a desagradável queria, dessa vez, era que eu confirmasse umas informações. Pelo que entendi, uma amiga minha foi fazer cartão na loja e deu meu nome como referência. Precisei só repetir que ela trabalhava, onde morava, o que estudava... essas coisas que eu estou cansado de saber! Ela é minha amiga de infância. Crescemos juntos. Somos vizinhos, amigos, companheiros. Dessas amizades com que podemos contar sempre. E, de tão consolidadas, chegam a cair na rotina.
Já é lindo ela ter escolhido o meu nome. Conheço toda a família dela, os amigos, o namorado. Sei que opções não faltaram. E fui eu o agraciado. Mas, mais lindo do que isso (e sim! eu sempre me apego mais ao que os outros nem percebem!), é pensar na situação em que ela empregou a nossa amizade. Quando éramos crianças, ela me convidava para seus aniversários (como me convida até hoje). Se me ligava ou chamava na campainha, era para tomarmos sorvete na pracinha, ou, mais comumente, para jogarmos queimada na rua. Fazíamos caminhadas também. Crescidos um pouco, íamos ao shopping, à feira hippie, ao cinema. Ou, simplesmente, e como gostávamos muito, sentávamos no passeio de casa e conversávamos horas e horas a fio. Sobre tudo e sobre nada. Longas e deliciosas conversas regadas a muitas risadas.
O tempo passou e, infelizmente, os nossos horários coincidiam cada vez menos. Foi assim com todos, éramos um grupo grande. De repente, um estudava de manhã, o outro trabalhava, um terceiro estava na Faculdade a noite... nossos encontros tornaram-se mais raros, mas ainda aconteciam. E, agora, quando indagada sobre alguém a quem se pudesse pedir referências, ela disse “Caio”. Não me surpreende não, somos amigos. Mas é ótimo me sentir lembrado assim... do nada! E é ainda melhor perceber que o tempo passa, as pessoas crescem, as necessidades mudam, mas a amizade, quando verdadeira, permanece!
Não tenho muitos amigos. É difícil conviver comigo, e eu sei bem disso. Exijo muito, cobro demais, sinto ciúmes... De cada dez que se aproximam, quando muito, ficam dois. E eu entendo os oito que se vão, ninguém é obrigado a me acompanhar. Só posso dar, como Shakespeare, razões para que as pessoas gostem de mim, e deixar o restante por conta da vida. Não posso exigir. E é exatamente por isso que valorizo tanto os dois que permanecem. Esses merecem um Caio completo, um Caio sem limites. E é por eles e com eles que vivo.
Bom saber que tenho amigos. Sinal de que, errado demais, eu não devo ser. Nem tão chato. E sinal, principalmente, de que estou no caminho certo. Talvez não o mais popular ou compreensível, mas o que mais feliz me faz. Sempre que lamento o reduzido tamanho do meu círculo de amizades, lembro-me da força com que essas pessoas se dão as mãos. E sei que, dentro dele, estou protegido de tudo e de todos. E é lá onde quero estar para sempre.

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