Páginas

domingo, 28 de setembro de 2008

Última Tragada

Fazia muito frio e uma chuva terrível ameaçava despontar a qualquer momento. Além disso, a hora já havia avançado e os – poucos – comes e bebes permaneciam intactos. Ninguém sequer tinha reparado neles. O número de pessoas aumentava tanto, e tão rapidamente, que, a essa altura, já era difícil distinguir quem era da família de quem estava apenas de passagem, atraído pelos burburinhos que se espalhavam pelos outros velórios. Em instantes, era como se todos os presentes no cemitério estivessem lá unicamente por ele. Sebastião teve, enfim, o seu momento de glória, era a atração do fim de semana. Quem visse de longe, e não conhecesse os boatos que se espalhavam, na certa, pensaria ser, ali, o velório de algum santo homem, um líder religioso ou um artista de cinema. Mas não! Era apenas ele, Sebastião da Cunha Lima, homem simples, motorista aposentado, morto por insuficiência respiratória.
Ao longo da vida, por anos e anos, Sebastião foi um fumante irremediável. Não passava um único dia sem fumar, pelo menos, um maço completo. Seus familiares e nós, seus amigos, alertávamo-nos a todo instante, e ele apenas concordava. Sabia o risco que corria, dizia-se um “irresponsável consciente”, mas não conseguia livrar-se da dependência. O que chamava a atenção de todos na triste história de seu vício, tão comum hoje em dia, era a estranha mania que ele cultivava de guardar os maços vazios. Um a um, somaram-se centenas, um recorde. E ele se divertia com isso. A ponto de construir um caixão a partir apenas dos maços vazios, o seu próprio caixão. O motivo de todo aquele alvoroço. Todos queriam ver o homem que confeccionara seu próprio esquife a partir do motivo mesmo de sua morte, os cigarros. A diferença era que, no lugar do “Já era”, bonequinho que, antes, habitava a “escultura”, era o autor que o preenchia, o próprio artesão vestia a sua obra, numa cena não muito bonita, confesso.
A situação beirava o cômico. Ninguém conseguia rir ou chorar. Era generalizado o estado de choque. Não se ouvia uma única voz. As pessoas pareciam divididas. Uma metade lamentava o absurdo do fato, enquanto a outra parecia divertir-se com a ironia do morto. Era, mesmo, um absurdo, não se pode negar. E o que se queria saber era a identidade do irresponsável que permitira o uso do tal caixão. Mas havia algo de divertido realmente. Podíamos quase ouvir as risadas do defunto. E ele ria bastante, às gargalhadas, da indignação de seus familiares e amigos. Afinal, confirmava-se o que ele, certa vez, havia dito em discussão acerca do tabagismo: já que seria, o cigarro, o responsável por sua partida, teria de arcar, também, com o transporte! E foi assim.

2 comentários: