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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Não sei, não quero saber e, por favor, não tente me fazer lembrar

Estava eu, tranqüilamente, dando aula pra minha aluna mais nova quando toca o interfone. Pensei “é a avó dela”.
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- Oi!
- Meu filho, vem aqui fora que eu preciso conversar com você – respondeu, aos gritos, a inconveniente voz do outro lado.
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1 – minha mãe não tocaria interfone na “escola” no meu horário de aula.
2 – “meu filho” é extremamente amplo. Prova de que ela, quem quer que fosse, não sabia o meu nome.
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- Quem é?
- É a Lena!
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3 – eu conheço duas Helenas e uma Madalena, mas nenhuma delas me chama de “filho”.
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Vou ao portão.
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- Pois não.
- Agora, é bom dia ou boa tarde?
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Vontade: “bom dia, de nada, tchau!”.
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- Bom dia ainda, eu acho.
- Então “bom dia, querido”.
- Bom dia!
- Você se lembra – diz, sorrindo, com a certeza de que eu vou confirmar – daqueles caminhões que passavam aqui no bairro o dia inteiro fazendo bota-fora ali na mata?
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Sorriso dela. Silêncio meu!
Eu lembro, claro! Mas não vou render papo com cabo eleitoral folgada de ninguém.
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- Não! Nunca vi!
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Surpresa. Respiração ofegante. Incredulidade. Indignação.
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- Lembra sim!
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4 – pessoas que discordam de mim despertam meu amor ou meu ódio. Depende da pessoa, depende da situação e, principalmente, depende do assunto. Odiei.
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- Não! Não lembro não!
- Claro que lembra.
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Vontade: “eu vou ter que desenhar?”.
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- Pois você deve estar se esquecendo agora, mas, com certeza, você já viu esses caminhões. Eles passavam aqui na avenida, levando lixo lá pra mata. Então! Foi esse homem que acabou com isso. Ele, eu e a presidente da associação do bairro. Ele trabalha no IBAMA.
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5 – uau! Ele trabalha no IBAMA e impede caminhões de circularem aqui no bairro. Ganhou meu voto!
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- Ok! Eu continuo não lembrando – pirracento! – mas obrigado pela informação.
- Você não lembra mesmo? Faz o seguinte: chama a sua mãe aí que ela deve lembrar!
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6 – quem é que estava me chamando de “filho” agora mesmo?
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- Minha senhora, isso aqui não é uma casa não! É uma escola!
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Surpresa!
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- Opa! Então, melhor ainda! Chama logo todas as professoras que eu quero falar é com todo mundo de uma vez.
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7 – odeio quando dizem “professoras”! “Não sei se a senhora reparou, mas eu sou ‘menino’!”.
8 – super me imaginei saindo do caminho e preparando as turmas para um debate ou uma palestra com a cabo eleitoral do empata-bota-fora!
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- Minha senhora, não tem mais ninguém aqui agora. Somos dois professores por vez e a que divide horário comigo saiu há uns quinze minutos.
- Tudo bem! Agora, você já conhece o trabalho dele. Fique aqui com uns santinhos e distribua pros alunos. E dê um pras professoras mais velhas, que elas, com certeza, vão se lembrar.
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Odeio gente que encerra conversa com esse ar de “só você não sabe disso!”.
Já estava voltando quando ela recomeçou.
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- Aposto que, quando o caminhão passava, vocês não conseguiam dar aula e reclamavam! Tá vendo?
- Como eu já disse, não-me-lem-bro! E sou novo aqui.
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Vontade: “no meu tempo aqui, não são os caminhões que incomodam não!”.
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9 – alguém quer adivinhar onde estão os santinhos do infeliz?
10 – preciso voltar a falar tudo o que penso. Por que eu decidi, nessa idade, ser simpático? Ódio!

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