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quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Sorria, você está sozinho.

A gente faz cada coisa para estar com amigos...
Acabo de chegar em casa, estava na despedida de uma amiga em um bar. Ela vai passar férias fora do país e marcou com os amigos para festejar. Se for para começar do começo, preciso contar que passei direto pelo endereço e estacionei alguns quarteirões depois. Mas tudo bem! O lugar era mal sinalizado, eu sou mesmo desatento, e é sempre bom caminhar sob esse vento que sopra a noite e ninguém sabe explicar de onde vem.
Chegando, surpresa! Nenhum amigo presente (exceto pela que me convidou, é claro). Uns rostinhos conhecidos (de outros eventos ou do colégio), mas ninguém que eu soubesse o nome pelo menos. Existe toda uma arte para sobrar em ocasiões festivas. A primeira lição é não fazer cara ruim. Isso massacra o anfitrião e o obriga a dar mais atenção a você que aos outros. Mas você é tão convidado quanto eles e ninguém tem culpa da sua solidão. Seja forte e sorria. Sorriso mesmo, firme, como se você estivesse morrendo de alegria. Só não pode focar em alguém. Imagine-se no lugar do outro: você está sentado com a sua turma de amigas e um psicótico olha fixamente para uma de suas orelhas com um sorriso congelado. Não! Não pode.
Tem que sorrir sem rumo, sorrir para todos os cantos.

Sorrindo, percebi que noventa por cento dos presentes fumavam (e, os outros dez, acho que estavam só sem cigarros), e fiz previsões horrorosas sobre a juventude de hoje (cheguei a comentar que era uma turma de odontologia?): o que se pode esperar de um dentista que fuma cigarro de palha? Passados os primeiros dez minutos de muita simpatia e giros suaves de pescoço em todas as direções, decidi ser mais enfático. Passei a analisar as raízes dos cabelos (mal) tingidos, os formatos das sombracelhas alheias, quantos meninos tinham gogó e quantos não tinham... esse tipo de coisa bem relevante. Até me lembrar do doido psicótico que observa as pessoas e virar meu sorriso pra parede.
Achei uma tevê! Importante: todo lugar deveria ter uma televisão. Sorrir pras paredes não convence.
Ri horrores com um comercial (e deixei as pessoas intrigadas com tamanha felicidade vinda de alguém tão deslocado), conheci todos os novos carros lançados no país, os desodorantes e, de repente, começou um jogo de futebol. Eu odeio futebol. E precisei sorrir para a grama boa parte do segundo tempo (descobri que tinha passado o primeiro sorrindo pras pessoas). Até agora, não sei quais eram os times em campo (não entendo siglas), mas suspeito que não eram do Brasil porque não havia nenhum jogador negro (ai de quem disser que isso não é um argumento satisfatório!).
Sorrindo pra telinha, decidi, pelo menos, ouvir o que se passava ao meu redor. Sabe aqueles meninos dementes que estudam com a gente em algum momento da vida e são sempre incógnitas para a nossa compreensão? Desses que ninguém sabe como aprenderam a ler e, menos ainda, como passam de ano? Um dos do meu terceiro ano fazia, a duas cadeiras de mim, um discurso inflado sobre alguma coisa que eu estava louco pra saber. Segundo ele, o seu fracasso no Vestibular do fim do ano passado deveu-se principalmente ao seu interesse por religião. Ele não gostava de estudar. Matemática? Química? Geografia? Não! Ele ia pra escola ler sobre religiões. Não assistias às aulas, nem fazia exercícios, mas tinha, sempre, um livro que falasse sobre Buda, Alá ou qualquer coisa que o valha em mãos. Hoje, ele não está na faculdade, mas sabe tudo de religiões e é ateu. Dou parabéns?
Voltando ao jogo, parece que a Sportv vai transmitir os jogos do Campeonato Italiano.
Oi? Sportv é um canal? Alguém acompanha campeonato italiano?
O menino continuou. Não desistia! Ia converter o coleguinha entre nós ou me matar, o que acontecesse primeiro. Um dos momentos mais emocionantes foi a enumeração dos únicos três caminhos para a riqueza, que são segundo ele: o tráfico de drogas, a prostituição e a igreja. Não vi a cara do ouvinte, mas até eu quis fazer cara de espanto para o assunto render. E, como todo bom mentiroso, claro que ele mesmo fazia as perguntas que pretendia responder: "mas aí você me pergunta 'e o Bill Gates'? e eu te respondo...". Adoro esses monólogos interativos interrompidos por muitas dúvidas. Para quem ficou curioso, sim!, ele explicou a relação do Bill Gates com cada uma dessas três "atividades econômicas". Juro!
Eu estava até querendo ficar mais e agüentar, mas apareceu uma menina (dessas que eu conhecia de algum lugar) vestindo uma cortina-de-pendurar-debaixo-da-pia-da-cozinha e o tenor que existe em mim cantou time to go bem forte. Tem coisas que são difíceis demais de aceitar.

Estava já me despedindo quando alguém gritou o meu nome. Oh, Deus, que seja a minha mãe!. Um dos rostos conhecidos me abraçou e conversou por minutos a fio comigo, sobre todos os - poucos - assuntos que tínhamos em comum. Cortei quando aceitei que não lembraria o nome da coitada de forma alguma. Não sei, não lembro, não adianta.
Claro que se eu sou ou não um avulso, a culpa é de qualquer um, menos deles. Sejam dentistas fumantes, ateus insuportávies ou meninas cafonas, mas sejam felizes. E que eu não lhes roube esse direito.
Agora, estou em casa tão sozinho quanto antes, e emburrado como sempre.
Mas não preciso sorrir. E Deus sabe o quanto isso me alivia...

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