Páginas

domingo, 23 de novembro de 2008

Vidamortevida












Ontem, por um milagre, após anos e anos de espera na fila dos transplantes, meu primo recebeu um rim.
Desde que me entendo por gente, ele sofre com problemas de saúde. Já fez cirurgias, tem dieta regrada, faz hemodiálise... e é tão estranho pensar que, de repente, ele pode se livrar de tudo isso e viver uma vida normal. É tão bonito ver a esperança nos olhos de toda a minha família. Estão todos rindo, chorando e gritando de alegria. É a oportunidade de uma nova vida, é uma chance, a todos, de o ter por perto por mais tempo e, a ele, de correr atrás de seus sonhos e os realizar. E é ainda mais lindo pensar que toda essa alegria vem do sofrimento de alguém.
Enquanto ele está na mesa de cirurgia do hospital (e ele deve estar até agora), alguma família está, por aí, velando o corpo de um ente querido, e lamentando sua perda. O triste fim de uma vida - que suponho - feliz possibilitou o recomeço feliz de uma vida até então muito triste. Ele, agora, vai poder estudar, trabalhar, namorar... fazer tudo que todos nós fazemos, e que ele não podia fazer. Não agora, é claro. Pois seu primeiro sonho é bem mais simples de ser realizado: beber um litro de água de um só gole, ignorando o limite diário de 500 ml de qualquer líquido rigorosamente estabelecido pelos médicos. Em seguida, ele poderá olhar para a vida que se inicia e fazer tudo o que não mais faz aquele cuja vida se encerrou. Ganhou três dias da semana (que não precisará mais passar no hospital por conta da hemodiálise) e muitas mais semanas de vida para deles defrutar. "Viveu" vinte e quatro anos, mas sabemos que, só agora, nasceu de verdade. Minha tia, onde quer que esteja, deve estar orgulhosa e agradecida àquele que, como ela, deu à luz o seu filho.
Quanto à sua família, quem quer que sejam, obrigado! Sei que nada conforta a perda de alguém, mas, sem dúvida, vocês se alegrariam se pudessem medir a felicidade que nos deram. A essa mãe que perdeu um filho, gostaria de poder dizer que ganhou outro. Aos filhos que perderam o pai (ou a mãe), que sejam, sempre, tão felizes, orgulhosos e gratos a ele como nós somos agora. Aos amigos e parentes, a minha família e seus amigos precisam agradecer. Vocês nos entendem, eu tenho certeza. Sabem a importância de termos aqueles que amamos por perto. E obrigado, Deus, por permitir que o fechar de olhos de um opere o abrir dos de outro. Nada pode ser mais sublime.
Quando eu morrer, quero que também assim se faça. De nada me serão úteis os órgãos, não mais precisarei do meu corpo. Se puder dar a alguém a alegria que hoje sinto, tenho certeza de que nada do que fiz em vida terá sido maior e mais gratificante. Quero que meu coração continue a bater, que meus rins filtrem, minhas córneas vejam... quero me manter vivo, mesmo que em outros e vários corpos.
Que a medicina avance e mais proveitos possa tirar do meu corpo. Dessa vida, quero levar apenas as boas recordações (de momentos felizes como esse), e, se possível, até os meus dentes, eu gostaria que continuassem a sorrir por aí, para que nunca se esqueçam do quão feliz eu fui, sou e serei! Vivo ou não.

Um comentário: