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sábado, 13 de dezembro de 2008

De volta pro fim.


Ao final de 2003, concluindo meu primeiro curso de teatro (comecei em três escolas diferentes, mas só concluí em duas – ou uma e meia, depende do ponto de vista), fiz parte do elenco de uma montagem chamada Aborrecente não... Adolescente! – o nome barango não foi idéia minha, juro. Foi uma peça linda, escrita em grupo pelos alunos e a professora, com base em textos individuais e muitas sugestões. A intenção foi encontrar o denominador comum da adolescência ao longo dos últimos quase 50 anos. Assim, enquanto duas narradoras pesquisavam sobre o tema para um suposto trabalho escolar, viajavam no tempo e, de 1960 em diante, cada década mostrava suas características mais marcantes principalmente através da música. No fim, havia uma conversinha nos tempos atuais, em que cada personagem falava sobre seu primeiro beijo, sua relação com os pais, com Deus... Mas a parte mais legal era, sem dúvida, a histórica.

Eram poucos meninos na turma, só quatro, mas um tinha pouco mais de um metro e, o outro, pouco mais de cem quilos (além de um probleminha de dicção) e, por isso, eu e Fábio (saudade dele!) precisamos nos desdobrar em inúmeros personagens. Vou ocultar o fato de ele ter sido alguns dos que eu queria ser só porque sabia cantar (eu só encantava), e, de tanto olho gordo meu, ter engasgado nas duas apresentações e ficado mudo! Se eu não canto, ninguém canta! Ele deu conta, sozinho, da década de 60 (e “cantou” Gatinha Manhosa em uma serenata que deveria ter sido linda, não fossem os “imprevistos”), em que a Jovem Guarda foi representada por meio das roupas de bolinha, do Splish Splash, dos bailes recheados de gírias (pão, garota papo firme...), e, claro, dos inúmeros figurantes da turma infantil, já que eu estava guardado para a década seguinte.
Vieram os anos setenta e, com eles, o movimento Woodstock: um tanto de meninas descabeladas fumando cigarros apagados e eu, de jeans e blackpower, fingindo tocar guitarra e dublando Hey Joe, do Jimi Hendrix. Lembro da dificuldade para decorar a letra (porque dublar pode ser uma arte ou uma humilhação, só depende de você saber ou não o que está dublando), descobrir como ele era (na época, o Youtube ainda não salvava vidas) e de tentar fazer a década de 70 parecer tão interessante quanto a anterior. Aqui, vou ocultar o – cômico – acidente com a minha peruca. Tem coisas que é melhor não reviver!
O auge, sem dúvidas, veio com a década de 80. Com os figurantes, Fábio e eu fomos os Menudos (não se reprima, não se reprima, não se reprima...), e, eu, o Paulo Ricardo. Não é porque era eu, mas Olhar 43 foi o clímax da apresentação, tenho certeza! As pessoas cantavam e batiam palmas freneticamente enquanto eu transbordava sensualidade com uma guitarra de brinquedo, o cabelo molhado jogado pra trás e todas as caras e bocas que pude e não pude fazer. Duas semanas demorei para perder o beicinho.
Depois, fui Collor, Arnaldo Antunes, dancei Cachorrinho, Tô Nem Aí, e mais um tanto de aparições. E era ainda mais difícil, porque o atual é sempre menos interessante e mais fácil de criticar. Mas o resultado final foi excelente. Todos gostaram. Na segunda apresentação, o público da primeira estava em peso para assistir mais uma vez, além dos convidados por indicação. A tia e as primas de um amigo meu, que tinha assistido à primeira, foram à segunda e adoraram o Arnaldo Antunes sem nem mesmo saber que era eu. Tive diarréia, dor de cabeça, dor no corpo, suadeira e tudo o que se espera de um bom amador, mas poucas vezes fui tão feliz na vida.
Hoje, cinco anos depois, o texto foi reapresentado pela nova turma da mesma professora, e eu não podia perder. Já que eu estou contando tudo pela metade mesmo, vou fingir que não me chamaram no palco no fim! Foi tão diferente. É tão estranho ver outra pessoa fazendo o que eu fiz, parecia outra história. Eram mais meninos dessa vez, mais músicas (5 anos se passaram, né?!) e mais responsabilidade, é claro. Nós, da minha geração, não somos as pessoas mais indicadas para avaliar, já que sempre vamos preferir a nossa turma, mas os meninos fizeram um bom trabalho. Com muitas falhas, reconheço. A minha parte foi dividida entre dois meninos e, mesmo em dupla, eles não conseguiram fazer tudo da forma como se esperava. Chegaram a me perguntar, depois, como eu dei conta! Trocas de roupas, entradas, expressão... Nenhum deles tinha o meu entusiasmo, mas eram os mais bonitos, e eu quero acreditar que isso foi proposital.
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O post acabaria aqui se eu precisasse lavar roupas, estudar ou fazer algo realmente produtivo, mas, na ausência, posso me ocupar com os problemas que crio.
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Fiquei super emocionado, é claro, por ver que as pessoas se lembravam de mim. Quem assistiu às duas turmas não conseguiu não comparar: esses meninos são muito durinhos, eu lembro que, quando o Caio entrava, a platéia ficava louca!; Ele de Menudo parecia que ia quebrar!; Ah! Esse Paulo Ricardo não tá com nada, o outro...
Foi ótimo ouvir os elogios todos mais uma vez, mas verbos no passado embaralham minha cabeça. Não fui nenhuma descoberta da dramaturgia mineira, eu sei, mas me esforcei tanto. O Jimi Hendrix de agora sequer abriu a boca. O Paulo Ricardo tentou, mas a platéia não contribuiu muito (eu gritei pra ajudar!). Os Menudos não sabiam rebolar! E eu me dediquei tanto aos detalhes. Senti uma vontade louca de interromper tudo, subir no palco e ajudar. Descobri, mais uma vez, que é disso que gosto e, agora, estou me martirizando em casa. Tenho um vazio estranho, que insisto em preencher com as mais diversas manifestações artísticas, mas nunca levo nenhuma adiante.
Vivo envolto a atividades de palco, e me realizo neles, mas sempre paro. Nunca é o suficiente. Foi assim com o teatro, com a dança, a música... é como se eu quisesse fazer tantas coisas, que não conseguisse seguir em só uma por muito tempo. Acho que, por isso, decidi estudar Direito. Escolhesse algo mais “artístico”, e tenho certeza que desistiria antes da formatura.
Fui convidado para uma nova montagem por uma das remanescentes da minha época. Uma peça que está sendo montada para um festival. Morri de medo, não sei se consigo voltar para um palco depois de cinco anos (parece pouco pra você que é velho, porque é mais que um quarto da minha vida!). E não sei se é hora. Trabalhando e estudando, tudo o que não preciso é resgatar um sonho bobo de criança. Ela ficou de me ligar na época da audição (que é uma espécie de “teste”). Como me conheço, tenho certeza que vou deixar nas mãos de Deus e dar as caras por lá. E, se bem conheço o destino, vou passar, ganhar um bom papel, fazer uma excelente apresentação, arrancar elogios de todos os presentes e fim. Aí, eu paro, de novo, para estudar, trabalhar, ou brincar de artes plásticas talvez. A única certeza é a do fim. Porque tudo na minha vida acaba rápido!

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