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sábado, 20 de dezembro de 2008

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Em Ecologia, na escola, estuda-se um conceito chamado “nicho ecológico”, que os professores definem como sendo o modo de vida de cada espécie no seu habitat. É como o a identidade ecológica de uma espécie, um conjunto de suas atividades e características. O que come, onde vive, com quem se relaciona. O estudo do nicho ecológico de uma espécie formula, então, um “catálogo de rotina”, uma ficha estritamente seguida e comprovada de comportamento dos animais.
É assim também com os humanos. Cada um de nós constrói seu nicho, e, juntos, estabelecemos um padrão coletivo. Nascemos, vamos para a escola, crescemos, trabalhamos, casamos, procriamos, aposentamos e morremos. Qualquer inversão nessa ordem “natural” é vista com maus olhos pela sociedade. Ter filhos antes de casar, só ir à escola depois de crescido... E cada uma dessas atividades estabelece uma rotina de localizações também. Da casa pra escola, da escola pra casa. Do trabalho pra casa, passando pela padaria. Se você demora um pouquinho mais em alguma escala, logo há alguém preocupado com o atraso. Somos regrados e controlados pelo tempo, pelos costumes, pelos desejos dos outros.
Se os animais, que parecem tão livres, não o são, por que nós o seríamos? Os peixes têm todo o mar e, até onde sabemos, nenhuma necessidade de residência fixa. Poderiam nadar de norte a sul e leste a oeste sem nenhum compromisso. Plâncton para comer e algum buraquinho para dormir não devem ser problemas em oceanos tão grandes. Mas, ainda assim, eles se instalam em algum cantinho, com pequeno raio de alcance. Comem sempre as mesmas algas, dormem nas mesmas pedras... E só migram em bandos e durante períodos pré-determinados do ano. As aves, que poderiam voar por todo o céu, escolhem uma árvore, constróem um ninho e se hospedam. Também viajam apenas em grupos. Mas por quê? Não seria lindo conhecer o mundo? Nadar ou voar sem rumo, sem destino e sem obrigações...
O bicho homem constrói casa, faz carreira, constitui família, tudo para se prender a algum lugar. E, depois de preso, viaja uma ou duas vezes por ano, para endereços longínquos, para fugir da rotina que tanto se esforçou para consolidar. E pode ser diferente, tanto que alguns se libertam desses padrões sociais que nos impomos, jogam uma mochila nas costas e saem por aí em busca de aventuras. Como os peixes, precisamos apenas de um lugar coberto para dormir, alguma besteirinha para comer e muita atenção para fugir dos predadores. Mas temos algo que eles não têm e que muito nos limita: o dinheiro. Entre nós, o necessário à sobrevivência não se encontra disponível, é vendido, trocado por notas e moedas que cultuamos como deuses. Cantinhos cobertos para dormir tornam-se pousadas ou hotéis, em que você precisa pagar para se hospedar. As plantas e animais precisam ser comprados para serem comidos. E, para conseguir o tal dinheiro, cada um de nós precisa vender, nas mais diversas atividades, a única coisa que realmente possuímos, que é o nosso corpo. Você vende a sua mão-de-obra, recebe dinheiro, e gasta com a manutenção dela. Um ciclo. Um nicho!
Então, se você não partir já com o suficiente na bagagem, vai precisar empregar seu corpo em quase tudo que se possa imaginar para viver. E é esse o principal obstáculo. A maioria dos homens prefere a estabilidade de um lar. A deliciosa e garantida rotina que nos mantém – tão – ocupados.
O único risco dessa vida mais livre é o excesso de liberdade. Quem muda muito de lugar não cria raízes, não constrói laços afetivos consistentes, não tem estabilidade. Conseqüências normais, como todas que acompanham quaisquer escolhas na vida. Meu avô foi assim. Esqueceu todos os obstáculos, encarou todos os desafios e está arcando com todas as conseqüências de sua opção por uma “vida livre”. Seus três primeiros casamentos terminaram da mesma forma: ele se cansou, juntou as coisas e partiu para não mais voltar. No primeiro, deixou meu pai com um ano de idade apenas. Conheceu muita gente, viajou por vários cantos do país. Teve vários empregos e, velho, sabia um pouco sobre tudo. Escrevia, tocava teclado, projetava guindastes (sem nunca ter estudado Engenharia), pescava... Agora, aos 76 anos, morando no Maranhão e “casado” - pela quarta vez - com uma mulher que poderia ser sua filha, sofreu um AVC e entrou em coma. Famílias comuns mobilizam-se em situações como essa. A dele não. São três ex-esposas (duas já falecidas), três filhos (dois de um casamento, um de outro), uma “ex-enteada”, cinco netos, duas noras, um irmão (e, com ele, uma cunhada e vários sobrinhos), e poucos se manifestaram. A atual esposa recebeu muitos telefonemas de conforto como manda o figurino, mas, até agora, visita nenhuma. Todos se justificam com variações de se ele ainda estivesse mais perto, como um eufemismo para ele nunca quis mesmo saber de nós. Parece que está se recuperando agora, mas ainda esnfrenta grave risco. Gostaria que ele se recuperasse, é claro, apesar de saber que, para a nossa convivência (inexistente), isso faz bem pouca diferença. Só o que me intriga é pensar no que ele diria se estivesse lúcido. Talvez não seja a morte que ele sonhou, coitado, mas ele já devia mesmo esperar por isso. Quem vive para si tem que aceitar morrer apenas consigo.

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p.s.1: Adorei esse negócio de p.s. no final dos textos!

p.s.2: Uma vez eu disse, em algum texto desse blog (que eu não vou lembrar nem procurar agora), que só percebemos o quanto gostamos das pessoas quando sentimos falta delas. Confirmo!

p.s.3: Preciso arrumar um emprego, e, agora, é mais urgente que nunca! Tenho vinte e nove reais e meio mês pra viver! Alguém me diz como? (na verdade, tenho R$29,47, o que faz com que eu precise depositar 53 centavos para poder sacar 30 reais! D-E-R-R-O-T-A-!)


p.s.4: Cabeçalho especial de natal! Já que ninguém elogiou o último, fiz outro. Mas volto com o antigo no ano que vem, pra dar mais uma chance a vocês de contribuírem com a minha auto-estima!

Um comentário:

  1. Queria te dar um abraço depois de ler isso. E, eu adorava os dois últimos cabeçalhos. Gostava mais ainda do primeiro.

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