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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Princípio de enfarte do vovô

Trinta minutos atrás. Estou eu na internet, quando toca o telefone (e derruba a conexão, é claro!):

- Alô!
- Celso! Celso! Aqui é a Sara! Etes está passando mal!
- Não, Sara! Aqui não é o Celso, é o Caio, filho dele. Calma que vou chamar.


Pra todo mundo entender:
Celso é meu pai.
Etes é o pai dele (meu avô).
E Sara é a namorada do meu avô. Mais de quarenta anos mais nova (e, portanto, mais nova que meu pai, minha tia, minha mãe... quase da minha idade!), que vive com ele no Maranhão.

Acordei meu pai correndo.

- Pai, pai, seu pai tá morrendo!
(isso chama impacto)


Impactei! A casa inteira despertou.
Meu pai correu para o telefone, falou alguma coisa do tipo “leve ele pro hospital e me mantenha informado” e seguiu direto pra cozinha.
Minha mãe, meu irmão e eu confabulávamos:

- Gente, não deve ser nada grave não, porque o papai dispensou a mulher em cinco segundos e tá bebendo limonada lá na cozinha.
- Ah, mas o papai não se abala nem se for com a gente. Se der sede, ele pára até um salvamento pra tomar limonada.
- Mas o avô de vocês é muito novo.
- Novo pra quê? Você não sabe o que ele tem? Tem idade pra passar mal agora, é?
- Ah! Quando é nessa idade, é enfarte geralmente. Mas ele é muito novo. Fez... quantos anos ele fez mesmo esse ano?

Volta meu pai.

- E aí? E a limonada!
- Pára, Tulio! E seu pai, como tá?
- Passando mal, uai. Deve ser príncipio de enfarte, normal. Mandei ela levar ele pro hospital e me manter informado. Não posso ir pro Maranhão agora, né?!


Então, éramos: papai querendo dormir, mamãe querendo lembrar a idade, Tulio rindo da limonada e eu relembrando tudo o que já ouvi sobre enfarte na escola.
Toca, de novo, o telefone.
Corri, mas meu pai foi mais esperto dessa vez!

- É? Eu imaginei! Mas ele já está no hospital, né?! Então, fique calma! Vão cuidar bem dele. Ele é forte, não morre fácil assim não! Me mantenha informado que vou ver o que posso fazer.

Não sei o que ele podia fazer, mas foi só dizer isso e apagou. Seja o que for, ele só fará amanhã quando acordar.
Voltamos a discutir.

- Ah! Então é enfarte mesmo! Gente, mas ele é muito novo!
- Ah, mãe, não é não! A expectativa de vida é 74 anos, passou disso, tá fazendo hora extra já.
- Ele é de 32!
- Ah! Então!
- É, uai. Tem sessenta e seis anos!
- Não, mãe! Tem SETENTA e seis! Mais do que na hora de enfartar mesmo, né?!


Silêncio mortal.
Seis olhos enfurecidos sobre mim (até meu pai levantou da cama)...
Uníssono:

- CA-LA-A-BO-CA-CAI-O!

Desmaterializei. Nem tive coragem de reconectar a internet. Esse povo não entende meu déficit de atenção. Fazer o quê se eu mudo de assunto rápido e vejo as coisas sob outro ponto de vista? Isso chama cientificismo...
Agora, é o vovô perder um dente, que a culpa vai ser toda minha, tenho certeza!

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