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sábado, 10 de janeiro de 2009

Do mesmo pai e da mesma mãe!


Todo pai diz que cria os filhos da mesma forma. Todo pai diz, também, que não tem preferência, e é mentira! Mas, na primeira afirmativa, eu acredito. Porque, por mais que se cobre mais dos mais velhos (como sempre acontece), ou que se favoreça um ou outro, alguns valores são imutáveis e sempre transferidos à prole, mesmo que de formas diferentes.
Minha avó paterna tinha fama de excessivamente rigorosa. Na verdade, isso é um eufemismo que as pessoas usam para maquiar o que as más línguas definem como “louca varrida” ou “bruxa demente”. O certo é que ela sofria de muitas doenças, que, somadas ao abandono do meu avô, consolidavam longas a e terríveis depressões. O resultado a imposição de uma educação tirana aos filhos, com muitas ordens, pouca paciência e nenhum direito de resposta.
Meu pai aprendeu bem a lição. Cresceu sonhando em ser pai, para viver os seus dias de tirania. Hoje em dia, chega a dizer, em alto e bom tom, sempre que pode, que apanhou pouco na infância (o que é mentira, se tomarmos, como referencial, uma criança normal filha de pais também normais), e que, caso tivesse apanhado um pouco mais, seria, hoje, uma pessoa ainda melhor.
Cri cri cri cri...
Minha tia não! Traumatizada com a criação distante e sem afeto, formou-se psicóloga e cria sua filha somente na base do diálogo. Diálogo até demais, eu diria, já que a minha prima cresceu um pouco sem limites. Em relação a formas de correção de crianças, eu compartilho da opinião da minha mãe: primeiro, a gente conversa; se não der, põe de castigo; em último caso, desce logo umas palmadas, corta a televisão, proíbe de sair de casa... faz tudo o possível para a criança respeitar a autoridade paterna, mas com uma certa gradação. Para não estagnar no diálogo, como a minha tia, nem partir direto para as punições como o meu pai.
Aqui em casa, as coisas foram, sempre, bastante equilibradas. Minha mãe nunca deixou o espírito coronel de sertão do meu pai aflorar, e ele cuidou de dar um pouquinho de rigidez ao jeitinho doce dela. E, ainda assim, meu irmão e eu crescemos extremamente diferentes! Um branco e um preto, um falante e um calado, um vaidoso e um largado, um estudioso e um preguiçoso... mas, principalmente, um ligeiramente mais rebelde que o outro.
Eis que, dia desses, brigamos com meu pai e ele cortou o fio de internet do meu quarto. Cor-tou! Sem mais nem menos, esbravejando de ódio, pegou um alicate e pôs fim a toda diversão das minhas férias! E a culpa, dessa vez, não era nossa. Não mesmo! Eu gritei, xinguei, espumei, fiz um escândalo! Ele nem olha mais na minha cara. Sou o filho ingrato, atrevido, rebelde, sem educação, mal criado, sem limites... um verdadeiro monstro! Só porque me defendi e briguei pelo que achava justo. O fato de ele ser meu pai (ter me criado, ser mais velho e todas aquelas etcéteras que pais sempre usam na hora das broncas) não é prerrogativa suficiente para estar sempre certo. Já tenho idade suficiente para ter bom senso e fazer juízos de valor. Sei avaliar quem está certo e quem não está. E não posso permanecer indiferente diante de uma injustiça, só porque é meu pai quem a pratica. Não, não!
Meu irmão preferiu assim. Sequer se manifestou. Não brigou, não reclamou, não falou nada. É o filho submisso e respeitoso que meu pai sempre sonhou. Mais uma vez, estão todos satisfeitos e admirados com sua educação, sua serenidade, sua resignação. E, enquanto meu pai e eu discutíamos, ele, calmo e fechado como sempre, mexeu na fiação e puxou outro ponto de internet, através do qual eu estou, agora, escrevendo nesse blog.
E aí? O que é melhor?

3 comentários:

  1. Túlio é o meu herói... mande um abraço pra ele!

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  2. Aqui em casa acontece a mesma coisa, só que eu sou seu irmão e meu irmão é você! Ele é o estressadinho que grita, xinga, eu sou a filhinha mais nova que chora. Não que eu abaixe a cabeça, mas eu penso que discutir com meus pais não dá em nada [meu irmão é um bom exemplo disso] então eu penso em algo pra não discutir e sair bem na história [como seu irmão fez...]
    Não sei qual lado é o melhor ou o pior, mas acho que pais felizes têm filhos diferentes. Seria horrível ter dois filhos bonzinhos super cutti cutti ou dois monstrinhos (Y)

    Viva as diferenças
    :*

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  3. é legal...como sempre!
    Só pra dizer: OOOii Caaaioo!

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