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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Tira o pé da minha tristeza?

Minha rotina sofreu algumas – bruscas – mudanças recentemente e a minha ficha ainda não caiu. A principal delas, que deveria estar tirando o meu sono, na realidade, ainda nem me fez pensar. Parece que eu já esperava, já estava acostumado ou, pior, desfrutava com tantas privações, que não fez diferença até agora. Além disso, coisas boas aconteceram simultaneamente, e eu já sofro mesmo de déficit de atenção...
O que interessa é que, pela primeira vez no ano (e em muito tempo), eu estou em dia com minhas atividades acadêmicas. Já comecei meus preparativos para viajar no carnaval. Estou em constante melhor companhia na Faculdade. E as coisas parecem estar entrando nos eixos, pelo menos nos meus sub-empregos. Prevejo mais trabalho do que nunca, mas é como se, pouco a pouco, fossem reconhecendo (e valorizando) cada vez mais a minha “mão-de-obra” tão barata...
Está tudo indo tão bem, que, hoje, decidi tirar um dia de depressão, e fazer tudo o que faço quando estou sofrendo por alguma coisa. A dor faz parte da vida, e me culpo muito quando ela não me incomoda nem um pouquinho. Logo pela manhã, cortei o cabelo. Tinha tudo para ser terrível, porque minha meta para 2009 era deixar crescer. Assim que cheguei ao salão, pela primeira vez em anos de freguesia fiel, meu cabeleireiro conversou comigo abertamente: “olha, eu já corto seu cabelo há tanto tempo, que tenho o direito de te dizer isso. Quando você vai me deixar fazer um corte bonito nele, heim? Com pezinho na máquina, arrepiadinho em cima... Eu sei que você gosta dessa coisa grande e sem sal, mas seu rosto é tão bonito! Olha seus dentes! Você precisa de um cabelo curto, que destaque isso tudo que o grande esconde!”. Eu até expliquei o que queria, mas ele estava determinado... não parou enquanto não achou suficiente. Pensei em chorar, gritar, correr pela rua... mas gostei! Estou careca quase, mas ficou bom mesmo, todo mundo elogiou! Ele tinha um pouco de razão quanto a destaque – e quando disse que fiquei “mais hominho”! Amadureci uns cinco anos. E não sofri, não adiantou!
Vesti minha roupa mais apertada. Decidi sofrer pelo excesso de peso. Mas emagreci. Não me senti confortável, é claro. Mas estou vestido até agora com ela. E já deve ter umas nove horas. Recebi um telefonema urgente da Faculdade. Almocei correndo e saí. Esperei uma eternidade na porta de uma sala, aguardando a gentil senhora que me requisitara aparecer. Estou lendo um livro ótimo, que diz tanto de mim que me constrange, e nem vi o tempo passar. Formou-se uma fila na porta, e ela simplesmente foi “furada” por dois conhecidos, que encontraram a senhora no elevador, sorriram para a fila e entraram assim que ela abriu a porta, com as caras mais lavadas que já vi. Um deles chegou até a me pedir que esperasse lá fora quando tentei me aproximar. E o que eu fiz? Voltei ao livro e esperei mesmo. Ando tão pacífico... A minha vez chegou e, como previa, não consegui o que queria. Nem assim fiquei triste. Repassei, mentalmente, os últimos acontecimentos, e ainda me descobri peça do plano maquiavélico daquele mesmo furão para se dar bem às minhas custas. Meu nervosismo durou entre cinco e dez minutos, juntei minhas coisas, fui embora, mas encontrei um amigo na rua e esqueci. Em mais cinco minutos, estava disputando quem achava mais livros na biblioteca em menos tempo.
Precisava, ainda, encontrar meu chefe. E seria perfeito, porque ele fala muito, e nada pode chatear mais alguém que isso. Foi divertido... Eu não trocaria outro capítulo do livro por isso, mas me diverti. De verdade! Nossa relação não começou bem, eu tinha muitas reservas e uma barreira muito grande. Mas ele tem sido tão simpático e agradável, que minha consciência até pesa de ser chato. Recebi meu salário (em tempo para a viagem), e ele ainda me acompanhou até o ponto de ônibus. Eu tinha que ir ao shopping (que era para outro caminho), mas não tive coragem de dizer. A conversa estava tão animada. Deixei dois ônibus passarem (e meus ônibus quase não passam), simplesmente por não querer ir embora. Achei que ele iria em algum momento, e eu poderia seguir pelo outro caminho, sem o constranger. Mas não! Ficou lá até o fim. No terceiro ônibus, me despedi e entrei. Sofreria em casa por não ter comprado o que queria. Esqueci que o ônibus passava, mais uma vez, pertinho do metrô. Desci. Dois e trinta por uns quatro minutos de muito vento no meu cabelo novo. Andei um pouquinho, ouvindo música pelo fone de ouvido do celular, e, na estação, uma menina assobiou quando passei. Juro! Nem eu acreditei. Estavam duas meninas me olhando e comentando à distância. Eu passei, e uma delas fez “fiu-fiu”. E um fiu-fiu de peão mesmo! Daqueles afinadinhos, capazes de fazer a gente morrer de tanta vergonha. No fundo, meu cabeleireiro tinha razão. Mas será possível que ninguém respeita a dor alheia?
Faltava comprar roupas e comer chocolate para o dia ser de depressão. E isso tinha que dar certo, porque o cabelo não deu (e não deu certo exatamente por ter dado certo!). Estou sem comer chocolate por uma promessa que nem vem mais ao caso. As roupas me salvariam, não sei escolher nada sozinho. Entraria em todas as lojas, telefonaria para todos os telefones amigos, experimentaria dezenas de peças... levaria uma e, com certeza, me arrependeria depois. Entrei em duas lojas, gostei de duas peças, comprei as duas e acabou! Impressionante como olhei para elas e soube que não precisaria mais procurar. Uma calça na primeira, e uma bermuda na segunda. E, nas duas vezes, a mocinha do caixa me paquerou. E nem é mentira, não tenho essas vaidades, mas hoje eu estou com mel. Ou o destino é tão irônico que ainda quis ajudar minha auto-estima, me fazendo vítima da emancipação feminina. Passeei pelo shopping cheio de sacolas, e comprei uma agenda (a uma semana de março!) linda, que encontrei escondida na última prateleira de uma estante, atrás das do Batman. Não comi nada porque estava com pressa, mas encontrei minha mãe cheia de pizzas.
Eu quis ser triste, eu tentei sofrer! Todo o tempo que passei sozinho foi repleto de drama. Olhares tristes, boca semi-aberta, desilusão. Até porque é carnaval, e eu não posso “cair na avenida” com essa dívida moral com o sofrimento. Mas não deu! Perdi!
A minha esperança é a luz acabar ainda hoje, ou a minha barriga doer, não sei. Não posso ter tanta sorte num dia só! Vou fazer o quê até o fim do ano?

4 comentários:

  1. 1 – Ficar em dia com as atividades acadêmicas nas férias? Até eu!

    2 – Quero ver o cabelo novo!

    3 – Disputar quem acha mais livros na biblioteca em menos tempo é muito nerd!
    E se você brincar disso de novo sem mim eu vou ficar de mal (Pronto, falei!).

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  2. Encontrei sem querer seu blog pelo google numa pesquisa "hipotálamo + auto-estima" e fui brindado com um excelente texto, daqueles que dá gosto de ler.

    Fiquei curioso pra saber qual livro voce tava lendo.

    cordialmente,
    Renan.

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  3. Também encontrei sem querer seu blog, adorei seu texto!

    Abs
    Renata

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  4. Uau... meus parabens pela maravilhosa mensagem! Alem disso, escreves muito bem! Já pensaste em escrever livros?

    Um abraço deste anónimo de Portugal!

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