Páginas

sábado, 7 de fevereiro de 2009

A UFMG quer incluir...

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), seguindo a tendência de outras universidades públicas do país, inovou em seu último Vestibular ao implantar os bônus para estudantes de escolas públicas e para negros. A proposta é aumentar em 10% a nota dos estudantes de escolas públicas em todas as provas (tanto da primeira etapa, fechada, quanto da segunda, aberta). Ignorando-se a eterna – e justificável – discussão acerca da necessidade de melhoria do ensino básico nacional – porque, se as escolas públicas fossem boas, estudante nenhum precisaria de um empurrãozinho para ingressar no terceiro grau –, a medida pode ser considerada até razoável. Salvo poucas exceções, esses 10% pouca diferença fariam, uma vez que o ensino público (fundamental e médio) brasileiro encontra-se desestruturado desde sua origem. A polêmica deu-se na questão dos negros. Dentre esses estudantes já beneficiados pelos 10% (e somente dentre eles), aqueles que se auto-declarassem negros ou pardos receberiam mais 5%, totalizando 15% de bônus.
Não bastasse o absurdo de se aceitar a auto-declaração como critério suficiente para considerar uma pessoa apta a receber o “incentivo”, qual seria a diferença entre estudantes negros, pardos e brancos egressos das mesmas escolas? Pense em duas crianças, uma branca e outra negra, que estudaram juntas durante toda a vida escolar, da primeira série do primário ao terceiro ano do ensino médio, na mesma escola, na mesma turma, com os mesmos professores. Na hora do Vestibular, o que justificaria o fato de uma delas receber maior bonificação que a outra? O ensino não foi o mesmo? As formações física, psicológica e emocional não são as mesmas? Ou os brancos possuem algo de que são desprovidos os negros? Seria a cor da pele fator determinante nessa divisão? Alguma pesquisa inglesa ou norte-americana descobriu relação entre a produção de melanina e o aproveitamento escolar? Ou, como sabiamente interpreta Demétrio Magnoli, o que acontece, aqui, é a pressão de um grupo social organizado e politicamente forte?
Diante da (gritante) impossibilidade de alguém, em suas perfeitas condições mentais, defender o argumento da cor, várias teorias foram criadas para justificar os 5%. A mais “aceita”, até então, tem sido a da dívida histórica que os brancos brasileiros possuem com os negros. Acredita-se que as imensas crueldades a que foram submetidos os afro-descendentes que aqui chegaram à época da escravidão precisam ser compensadas. Mesmo que os referidos negros credores não mais estejam vivos para tal. É como se seu legado às novas gerações fosse essa dívida jamais quitada. Que os brancos de hoje, herdeiros de tamanho débito, “pagariam” facilitando o ingresso da juventude negra no ensino superior gratuito. As famílias separadas, os filhos vendidos, as mulheres violentadas, as surras e castigos... tudo a que foram submetidos os negros escravizados será pago, agora, mais de cem anos depois, com vagas na Universidade. Troca justa? Porque, em caso afirmativo, o Brasil precisa quitar outras dívidas ainda: os índios, os exilados, os torturados pela Ditadura, os militares mortos em batalhas, as mulheres... Sem citar a dívida portuguesa com os brasileiros. E, de dívida em dívida, o Vestibular perde sua obsoleta função. Selecionar os mais preparados tornou-se injustiça, a regra, agora, é selecionar os mais “merecedores”, vinculando o merecimento a outros critérios que não o intelectual.
Quando a poeira levantada pela decisão da UFMG parecia ter baixado, e as pessoas já demonstravam resignação em relação à nova realidade, os jornais divulgaram o primeiro lugar geral do Vestibular. Roberta Tameirão Matos Dayrell, de 19 anos, egressa do Colégio Militar de Belo Horizonte (a melhor escola pública do estado, sempre entre as melhores do país), alcançara o primeiro lugar do curso de Medicina e o primeiro geral do concurso. Em seu segundo Vestibular, depois de muito estudo, absoluto merecimento, e os 15% de bônus a que teve direito, Roberta atingiu a incrível marca de 98,15% da pontuação total das duas etapas. Multiplicados por 1,15, seus 54 pontos da primeira etapa foram transformados em 62,1 (em 64), enquanto os 86 da segunda tornaram-se 98,9 (em 100), números dignos de aplausos e reconhecimento. As inúmeras reportagens, entrevistas, a veiculação de suas fotos por um conhecido curso pré-vestibular da cidade, e a internet (é claro!), deram início a uma nova polêmica. “Ela é loira!”, gritam e esbravejam os opositores. E, sim, é mesmo! Mas qual o problema? Não é auto-declaração? Ela se declarou negra ou parda, e quem pode saber mais que ela sobre sua própria cor? A UFMG não previu fiscalização. Só em Medicina, 92 (dos 320) aprovados receberam bônus e, desses, 65 de 15%. São todos eles realmente negros ou pardos? Quem pode dizer que não?
Os defensores das cotas concordam com a existência de uma dívida histórica transmitida às novas gerações, mas alguém arrisca dizer que não existem negros entre os antepassados desses beneficiados? No Brasil, quantas famílias 100% brancas ou 100% negras existem? Somos, desde nossa origem, um povo caracterizado essencialmente pela mistura, pela miscigenação. Todos nós temos ou tivemos algum negro na família. E, se há negros, há dívida! E dívidas precisam ser pagas... As acusações de “má-fé”, “mentira” e “falta de caráter”, constantes em fóruns de discussão sobre o assunto, não passam de despeito ou revolta. As críticas a Roberta representam apenas a personificação de todo um sistema fadado ao fracasso. Inúmeros candidatos fizeram uso dos 15%, ela só fez o melhor. O sistema de bônus é que é falho, não o caráter dela ou de nenhum dos outros agraciados. Não há nenhum fator plausível que os torne menos merecedores que ninguém. Branca, azul, cor de rosa ou amarela, são dela os 98,15%. E isso não há quem possa tirar!
O único erro em todo o processo foi da UFMG, que tentou separar os estudantes entre negros, pardos e brancos na tentativa de quitar uma dívida da qual somos todos credores. Sem medo de generalizar, todos mesmo!


E eu?

Um comentário:

  1. Deus do céu!
    E você ainda diz que precisa me chamar pra escrever algo publicável?!
    Publique esse texto!
    Maravilhoso!
    (Claro que ainda vamos escrever o nosso... ainda essa semana, de preferência...)

    Ow, você não tem educação!

    ResponderExcluir