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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Ziguezague


Descobri que não tenho medo da morte, meu problema é com a vida. Dizem que cancerianos são presos ao passado, apegados a recordações, a ponto de não valorizarem o presente. É verdade em parte apenas. Coleciono objetos antigos, guardo toda e qualquer correspondência que recebi desde que aprendi a ler (de postais a cartõezinhos da aniversário), e tenho enorme dificuldade em me desfazer de coisas velhas. Mas o que mais me afasta do presente é o futuro. Penso muito no passado, mas não com nostalgia. Até mesmo aquilo de que me arrependo, acho que faria outra vez. Acredito na justificação pelos contextos, e isso me tranqüiliza bastante. Sei o que fiz, sei como foi, e já vivi ou vivo os resultados. Não sei lidar é com o desconhecido.
A morte é algo tão certo e inevitável, que não entendo o medo que causa em alguns. Concordo que a adiantar ou desafiar nunca é a melhor opção, mas é pretensão demais tentar enganá-la. Não há diferença entre morrer em um salto de pára-quedas ou engasgado com uma azeitona deitado na rede da varanda. Morte é morte sempre! E ninguém precisa estar dentro de um avião para ser vítima de um acidente aéreo, por exemplo. Só o que me assusta é o tempo que esse processo pode levar. Está certo que o destino é o mesmo, mas prefiro os caminhos mais curtos, mesmo que aparentemente trágicos. Já nasci e morri tantas vezes, tenho medo é de viver. Medo de câncer, de Alzheimer, medo de esclerose múltipla. Perdi dois parentes em um ano: uma tia atropelada por um ônibus, que morreu imediatamente, em abril de 2004; e um tio que caiu de um barco, ajudou os amigos a se salvarem, mas, em meio ao desespero, sofreu uma parada cardíaca e afundou, lentamente, ressurgindo dias depois, em dezembro do mesmo ano. Em contrapartida, minha avó passou dos oitenta com saúde, mas escuta pouco, não distingue os dias da semana e está cada vez menos lúcida. A cada dor mais forte que sente, telefona para toda a família e se despede. Vive com medo de morrer de repente. Nesse carnaval, perdi meu avô e um vizinho. Meu avô esteve internado: AVC, coma, paralisia... quando parecia não mais retornar, acordou e já estava até reconhecendo as pessoas, mas morreu em seguida. Meu vizinho fez redução do estômago, teve um pesadelo no CTI, acordou assustado, caiu da cama, abriu os pontos, infeccionou, e morreu também. Morreram de repente?
É por isso que o futuro apavora meu presente. Se morresse hoje, não deixaria assuntos mal resolvidos, nem arrependimentos ou mágoas. Mas levaria desejos. Tenho, ainda, muito o que fazer. De conhecer outro país a ter um filho. Experiências que passeiam por todos os campos e sentidos. Uma lista sem fim, em que, para minha aflição, escrevo mais que apago, dias após dia. E a efemeridade do tempo, que aprendi com os poetas, vem, toda noite, puxar meu pé enquanto durmo. Arrasta correntes, bate portas, sussurra, e não me deixa esquecer que meu tempo é contado. É pouco e está passando! Vem daí a minha urgência. Tenho pressa para a vida. Quero amores intensos, risadas escandalosas, beijos de tirar o fôlego. Tento fazer inesquecível qualquer experiência, por menos importante que seja, para não precisar repetir. Extrair o melhor de cada momento, conhecer o maior número possível de lugares e pessoas, me encantar com as coisas, aprender de tudo um pouco. Cozinhar, dançar, desenhar. Sou virgem de tudo o que não fiz, e não quero morrer assim. Sou curioso, sedento, quero experimentar de tudo. E experimentar é, na maioria das vezes, só o que preciso para não querer mais. Sabendo como é, posso gostar ou não. Mas apenas sabendo! Alguém me disse, certa vez, que me conquistar é tão fácil quanto me perder. E tinha razão, acredito. Eu gosto é de novidade. E o novo só me encanta enquanto permanece novo, se reinventa, me surpreende. Alguma coisa me faz fugir da rotina, buscar sempre uma inovação. Trocar o certo pelo duvidoso, porque o certo eu já conheço. E o que me faz feliz é conhecer!
Acho que soa bonito, assim, para quem lê. Mas só lendo! Na prática, é uma angústia, um vazio, uma coceira... uma pressa que parece não cessar. E não cessa mesmo. Essa estrada não tem fim. De encruzilhada em encruzilhada, escolhendo retas ou caminhos curvos, o meu destino é andar, para sempre, em ziguezague. Saltando de um lado para o outro da pista, egoísta, guloso, para desfrutar das duas vistas, e não perder nenhum detalhe...

Um comentário:

  1. difícil é expressar o tanto que gostei desse texto!

    ficaria extremamente orgulhoso se o tivesse escrito, pois saberia que consegui exprimir sentimentos de uma forma ímpar. parabéns, caio!

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