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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Do começo ao fim

Quando pequeno, meu maior objetivo era crescer. Apesar de filho mais velho, sou quase o caçula de quatorze primos. Aos seis, aguardava ansiosamente completar nove. Aos nove, doze. Depois, dezesseis e, por fim, dezoito. Lentamente, conquistei todas as liberdades com que sonhava. Andar sozinho de ônibus, ir ao shopping após as aulas, ir a festas a noite, voltar delas só de manhã, dirigir, trabalhar... Mas a satisfação de conseguir algo quando se é criança não dura muito, já que, quase imediatamente, passamos a desejar outra coisa. E, assim, a gente envelhece.
Estou um pouco nostálgico desde que meus amigos começaram a completar seus vinte anos. É sinal de que o meu dia se aproxima (adoro comemorar aniversário, mas, como bem praguejou a minha mãe – e praga de mãe, a gente sabe –, já comecei a não gostar de somar anos à minha idade), e não sei se estou preparado para completar o primeiro quarto da minha curta vida. Já falei sobre a pressa que sinto, a – imensa – quantidade de coisas que ainda pretendo fazer, e o tanto que gosto de planejar e ter controle (ou acreditar ter) sobre a minha rotina e o meu destino. Mas o que tem me preocupado um pouco mais durante esses dias é exatamente envelhecer. Quando conquistei o tão sonhado direito de ir sozinho ao shopping depois da aula, mesmo que só para comer crepe de frango com milho ou experimentar roupas para a minha mãe comprar depois, isso foi divertido nas três primeiras vezes apenas. Da quarta em diante, o ônibus de volta pra casa já me irritava demais. E era sempre tão difícil descrever com exatidão qual roupa eu tinha experimentado e gostado. Seria muito mais fácil e confortável, é claro, ir de carro, estacionar na sombra, comprar o que escolhesse e voltar para casa quando quisesse. E eu já tinha outros sonhos então.
E tem sido assim desde sempre. Depositar meu salário na minha conta no banco, fazer compras com meu cartão de crédito, viajar dirigindo o meu carro, assinar meus próprios documentos, ser responsável por mim. Tudo o que eu não via a hora de fazer aos quatorze, quinze anos, virou rotina agora aos quase vinte. E já tenho outros objetivos. Quero ganhar mais, ter minha casa, comprar “jantar para dois” na saída do trabalho e passar a noite assistindo a filmes bobos na tevê com alguém. Escolher a escola dos meus filhos e os obrigar a praticarem esportes desde que aprenderem a andar. Coisas que, “em breve”, eu farei sem prestar atenção, pois já estarei preocupado com outras. E é ruim pensar que vai ser sempre assim, não porque eu queira, mas porque não sei ser diferente. Dói pensar que, além de todas as cobranças sociais, e maior que elas talvez, há uma gula que me consome, um desejo que nunca cessa, que quer sempre mais e mais e não se satisfaz por muito tempo. Junto à nostalgia da infância, caminham a pressa e o medo do futuro.
E começo a acreditar que não há cura para a velhice. Que ela é um efeito muito mais que apenas físico e, portanto, bem mais difícil de vencer. Às vezes, desligo o despertador e decido tirar um dia de folga. Penso naqueles pais dos filmes americanos, que pouco convivem com a família por se dedicarem apenas ao trabalho, penso nos dias lindos de sol que perco na frente do computador ou na sala de aula, na minha força e vigor, que não durarão muito tempo. E decido desfrutar de tudo isso pelas próximas 24 horas ao menos. E não consigo. Antes das nove, desperto “naturalmente”. Ao longo do dia, a consciência não deixa nenhum prazer durar muito, a responsabilidade me faz planejar os próximos dias, criar alternativas, compensações para esse “tempo perdido”. E eu passo a desejar o dia em que isso vai acabar, fingindo não saber o quanto vai demorar. Se lamento já completar o primeiro quarto da vida, prefiro não perceber que passarei os próximos dois trabalhando, para poder “descansar” no último, quando não mais puder fazer o que podia nos primeiros. Quando eu, enfim, “souber” mais sobre as coisas da vida, não mais farei a maioria delas. E vou tentar dividir minhas experiências com aqueles que me ouvirão com a mesma impaciência que me preenche diante da minha avó e tios. É muito difícil crescer, e eu acho que chegou a minha vez. Por mais que eu queira conservar as bermudas e cores da adolescência, estou cada vez mais perto das calças compridas, do preto-bege-azul-branco-e-marrom. As minhas espinhas deixarão de parecer pouca idade e se tornarão “desenvolvimento tardio”. Meu temperamento, infantilidade, retardo, no máximo charme. É uma passagem necessária e natural, que eu já sabia que aconteceria, mas queria que fosse mais fácil. A vida é um ciclo, um circo. Mas não tem muita graça continuar uma história que eu já sei como termina...

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