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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dois anos

Logo que nasce, até os dois meses de idade, mais ou menos, os bebês passam a maior parte do tempo dormindo. Enxergam pouco, mas já escutam bem, reagem a sons mais altos, assustam-se com os inesperados e se acalmam com vozes conhecidas, principalmente se femininas ou infantis. Sua musculatura começa a enrijecer e o bebê torna-se capaz de balançar os braços sobre a cabeça ou tentar pegar objetos próximos. Ao terceiro mês, desenvolvem-se as glândulas lacrimais; e, somente no quarto, a criança dá boas risadas.
Comigo, eu acredito ter sido um pouco diferente esse desenvolvimento. Imagino ter demorado um pouco mais para sorrir, e muito menos para chorar. Desde os primeiros dias, fui preocupação constante dos vizinhos e amigos. Há boatos de que minhas tias se revezavam para cuidar de mim na tentativa de proporcionar algumas horinhas de sono a minha mãe, já que eu nunca fui mesmo apegado a horários. Logo nessa época, levei minha primeira palmada. Ainda não superei, é claro. E isso é argumento constante em discussões familiares até os dias de hoje.
Ele já nasceu bonzinho. Como de sua natureza, não fez barulho, não deu trabalho. Não sei mesmo se enxergava, mas sempre foi meu melhor ouvinte. Seus braços já nasceram firmes, assim como os ombros. E ele nunca riu nem chorou, mas reconhecia a minha voz, e me via, eu acho. Era sempre um semblante simpático olhando por e para mim.
Ao longo dos meses seguintes, até completar o primeiro ano de vida, a criança aprende a engatinhar, brincar sozinha e dizer seus primeiros dissílabos. Define qual é sua melhor mão, põe na boca tudo o que toca, abre gavetas, passa páginas de livros e entende o que é “não” pelo tom de voz utilizado. Imita expressões, faz caretas, repete sons. Reconhece palavras e símbolos, e é capaz de procurar por objetos escondidos. Senta, engatinha, se apóia e, um dia, sai andando.
Por volta dessa época – um pouco depois, eu suponho –, aprendi a subir escadas, e abri duas vezes a cabeça, uma no berço e outra no escorregador. Aprendi a andar, a entender e a fazer tudo o que as crianças faziam, mas era muito quieto. Até mesmo porque, nas poucas vezes em que me excedi, terminei no hospital, com a cabeça raspada e cheia de pontos. E chorar demaiS, eu já tinha aprendido, resultava em palmadas. De brincar, eu não gostava muito. E antes não gostasse nada, Porque foi nessa época que, em um infeliz momento de brincadeira solitária, minha mãe atentou para a “necessidade” que eu sentia de um irmão. Nunca mais brinquei. E, seguindo o raciocínio imbecil, ela precisaria de um terceiro para curar a solidão do segundo, já que eu não era seu amigo.
Nesse período, ele já estava forte. Superadas todas as minhas crises de “depressão pós-parto”, em seu primeiro aniversário, ele já tinha me conquistado. Comemoramos, teve até foto de bolo. Foi o primeiro que vi completar primaveras. Não sentava nem corria, mas já era imbatível na arte de fazer caretas e repetir sons. Só não gostava de “não”. Entendia, mas parecia não querer assimilar. E regurgitava toda e qualquer negação sempre que eu menos esperasse. Melhor forma de fazer alguém voltar atrás, eu diria.
Até o vigésimo quarto mês, o bebê desenvolve a memória e passa a dizer pequenas frases. Gosta de rabiscar em papel (e paredes), diverte-se com água e desenvolve seu senso de humor. Reconhece nomes, pessoas e partes do corpo, aprende a comer sozinho, gosta de ouvir repetidas vezes músicas e histórias e já sente a falta dos pais. Corre, chuta, fica na ponta dos pés e aprende a fingir. Em seguida, passa a impor suas vontades, adquire consciência de quem é, sente ciúmes e aprende a controlar sua bexiga.
Não sei, até hoje, se controlo tão bem a minha, mas minha mãe conta com orgulho que, quando criança, eu não conseguia segurar o xixi e, muitas vezes, fazia nas calças mesmo. Nessas ocasiões, entretanto (e vem daí o orgulho), ficava imóvel até que a última gota chegasse ao chão. Só então, tirava a calça, limpava o chão com um pano e seguia para o chuveiro, sem que ninguém precisasse me repreender ou ordenar. Olha, que gracinha! Talvez eu fosse mais “livre” hoje se, àquela época, tivesse aprendido a correr pelado pela casa fazendo xixi nas pessoas e coisas, mas isso eu jamais descobrirei. Minhas frases já eram bem elaboradas também, pequenos problemas com pronomes, mas idéias consistentes. Antes mesmo dos dois anos, já havia desferido, muito docemente, um “mas você não me manda” no marido da minha avó, que tentava ferir meu direito de ir e vir. Meu senso de humor demorou mais, eu acho. Não era uma criança muito feliz. Parecia aqueles meninos com verme dos comerciais de xarope, que vivem deitados, sonolentos. Devia conseguir correr, mas não corria. Era educado demais, eu acho (exceto pelas más respostas, é claro). A imposição das vontades e os ciúmes (semi-doentios), trago comigo ainda. Só a percepção sobre quem sou, que eu acho que “perdi na mudança”.
Ele, eu não sei se sabe quem é. Mas quero acreditar que sente falta e ciúmes de mim. Não possui bexiga e não sabe o quão agraciado é por isso. Não corre, não chuta, nem fica na ponta dos pés, mas eu também não o fazia aos dois anos, e completei 19 com saúde. Reconhece pessoas e nomes, mas tem certa dificuldade com partes do corpo. Sua memória é assustadora, registra para sempre toda informação que recebe. Não sei se gosta, mas ouve a mesma história várias vezes, cada hora com uma emoção diferente. Finge bem, engana a todos, demonstra um misto de força e inocência, um encanto jovial e esperançoso, que eu talvez já tenha perdido – ou esteja perdendo. E seu senso de humor é delicioso, contraditório de tão rápido, e, por isso, surpreendente.
Preparado ou não para isso, em conformidade ou desacordo com o que se espera de um bebê dessa idade, a melhor parte de mim completa, hoje, dois anos de vida. Entre agradecer e fazer juras de amor, escolhi homenagear aquele que, há 730 dias, sustenta minhas decisões, discute meus problemas, ouve meus desabafos e faz minha vida melhor.
Parabéns, blog! Que você viva muitos e muitos anos ainda.

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