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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Ovo no cu da galinha

Dona Raposa vivia sozinha em um pequeno sítio há muitos anos. Chegara cedo à região e ocupara um descampado na mata. A pequena cabana de madeira tornou-se rapidamente uma bela e confortável casa. Em volta, uma horta e um pequeno cercadinho com uma galinha apenas, Tereza. Dona Raposa era muito trabalhadora, mas, sozinha, não tinha muita ambição. Acordava cedo todos os dias para alimentar Tereza e cuidar da horta. Arrancava os matinhos que insistiam em crescer entre suas grandes e muito verdes folhas de couve, alface e agrião, afofava a terra, regava. Próximo ao meio-dia, encontrava sempre um ovo no ninho, que lhe servia de almoço. Com saladas coloridas e muito saborosas, Dona Raposa fazia maravilhas com os ovos na cozinha todos os dias. Um deleite ao colesterol.
Nas redondezas do sítio, outras famílias de animais se estabeleceram sem que ela sequer percebesse. Foram muitos anos isolada, sem nenhum contato com a vizinhança. Até que, certo dia, Dona Raposa precisou comprar trigo. Seu estoque antigo chegara ao fim, e ela pretendia assar um bolo. No caminho até o armazém, foi surpreendida por olhares atentos e curiosos, todos queriam ver a misteriosa vizinha desconhecida. Constrangida, e tentando aparentar simpatia, Dona Raposa convidou uma família de vizinhos para conhecerem seu sítio e provarem do bolo que assaria no dia seguinte. Era hora de estabelecer contato. Começaria por essa família e, pouco a pouco, conheceria toda a vizinhança. Comprou o trigo, voltou para casa e se pôs a preparar tudo. Na pressa, não almoçou, e guardou o ovo para o bolo do dia seguinte. Limpou a casa, o jardim, as vidraças. Dormiu tarde e esgotada.
Acordou cedo, poucas horas depois, de tão ansiosa. Na angústia, fritou o ovo que havia guardado e o comeu. Precisava se distrair para não pensar nas visitas. Na hora de começar a preparar a massa, foi ao ninho buscar o ovo do dia e ele não estava lá. Estranho, já era quase meio-dia. Voltou para casa, eles só viriam no fim da tarde, Tereza, na certa, estava apenas atrasada. Separou o trigo, lavou a fôrma, os pratinhos e talheres, e nada do ovo sair. Começou a se preocupar. Tentou cochilar, mas não conseguiu. Será que, no dia do tão esperado bolo, Tereza falharia? Buscou um banco e se sentou no galinheiro. A tarde passou rapidamente enquanto Dona Raposa fitava Tereza no ninho, que agia com indiferença, como se não soubesse da aflição de sua dona. De repente, passos, uma batida no portão e pronto: os visitantes chegaram. Dona Raposa, enlouquecida, atirou longe Tereza pelas asas para ver o fundo do ninho, que, inexplicavelmente, estava vazio. Tereza não quis botar naquele dia!
A moral da história poderia ser a importância de se economizar para o futuro. Ou, para ser mais divertida, uma recomendação sobre não ser amigo dos seus vizinhos. Mas, na verdade, acho que o que Dona Raposa precisa aprender é a não contar com ovos que a galinha ainda não botou, porque pode ser que ela não bote. Expectativa é uma merda mesmo...

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