Páginas

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Porque se Bial eu fosse...

O Big Brother é um jogo de convivência. Pessoas diferentes, de lugares diferentes e com educações diferentes são postas em uma casa repleta de câmeras, isolada do meio externo, e o resultado disso é acompanhado por milhões de espectadores em todo o país. Por “convivência”, cada um entende uma coisa. Viver em grupo, aceitar o outro, estabelecer relações harmoniosas, ou, mais que isso, buscar um equilíbrio, um denominador comum. Nenhum sentido prevê “cativar” ou “encantar”. Essas pessoas são reunidas para viverem, não para atuarem. E são diferentes exatamente para que vejamos as afinidades e discrepâncias, os acordos e choques, para que sejam elas mesmas e, assim, contribuam para o mosaico da raça humana que se forma frente aos nossos olhos.
Com as últimas edições, aprendemos que pobres tiram muito da expectativa. Por mais que gostemos mais de um ou nos pareçamos com outro, ninguém consegue não simpatizar com a pobreza. No fundo, cada um de nós tem um pouco de vontade de curar os problemas do mundo, e o que pode ser melhor para isso que 1 milhão de reais? Excluídos os pobres, quem se tornam, imediatamente, os preferidos do grande público? Os que vivem ou os que atuam? Já foram nove e, até hoje, ninguém venceu por se mostrar. O Big Brother só prova o que a sociedade tenta, a todo custo, mascarar: as pessoas não se gostam. Ninguém gosta de gente sincera, que se expõe. Como humanos, todos temos qualidades e defeitos, mas aqueles que deixam os últimos a mostra são sempre punidos. A cada ano, um novo “engraçadinho” fica milionário graças aos telefonemas de milhares de famílias, que não se contentam em apenas assistir, gostam de participar.
Hoje, temos um confronto entre os dois melhores representantes, nessa edição, desses dois extremos de comportamento. De um lado, a Ana Carolina, menina mimada, cheia de vontades, várias vezes acusada de “individualista” pelos companheiros de confinamento. De outro, Max, a “personificação da alegria de viver”, um cara sempre sorridente, divertido, que apronta as maiores trapalhadas em frente às câmeras. Ana, como boa “menina estragada”, foi polêmica desde o primeiro dia. Gastou parte do sabão em pó da casa para matar formigas, e foi, por isso, eterna e terrivelmente acusada pelo “egoísmo” de sua atitude, mesmo tendo lavado todas as roupas de todos os participantes da casa quando tiveram o sabão confiscado. Max foi simpático desde o começo, arrumou uma namorada “feita sob encomenda” para seus objetivos, fez um grande-amigo-inseparável, dançou até o fim em todas as festas, fez caretas em todas as transmissões ao vivo. E, mesmo quando desistia das provas de resistência, fazia-o em prol de alguém, nunca por realmente desistir – ou conseguir admitir isso.
Ana fez desafetos e cuidou de os indicar ao paredão. Quando saíam, como boa menina educada, acompanhava-os até a saída da casa. Lá, como má menina sincera demais, despedia-se com um seco “tchau”. Sem abraços, sem “vou te amar pra sempre” ou “te vejo lá fora”. Que feio! Max jamais faria algo assim. Pelo contrário, Max chorava, abraçava, “morria” de saudades. Como podem ser tão diferentes duas pessoas? Como Ana pode ser tão humana? Como ela tem CORAGEM de não gostar de alguém? Como ela, além disso, é fiel aos próprios sentimentos e não se rende às amarras sociais? O povo não pode aprovar isso. A convivência torna as pessoas menos interessantes, e ela se deixou conhecer. Como eu vou “dar um milhão” a alguém que escolhe de quem vai gostar, e nem disfarça para parecer agradável. Principalmente sendo tão fácil ser diferente. Seu oponente, Max, jamais sofreu desses males. Não teve inimigos, foi “querido” por todos e soube retribuir. Nunca teve um breve momento de antipatia. Acordava e dormia sorrindo. Até quando estava triste, cuidava de chorar diante das câmeras apenas, em ângulos favoráveis, que o mostrassem como uma pessoa sentimental, nunca um desesperado. Um coração doce como de criança não é jamais capaz de odiar. Não é mesmo, Brasil?
Mais uma vez, o povo precisou escolher entre o que existe e o que gostaríamos que existisse. Mais uma vez, a realidade enfrentou o sonho, a idealização. E, em um programa sobre pessoas, aquele que mais se aproximou de uma foi eliminado pelo que mais distante dessa condição se manteve, porque o povo brasileiro gosta é disso, nossa sociedade tem problemas com a verdade. E quem sai, com 58% dos votos, é você, Ana.

Um comentário:

  1. fiquei besta com a sua ótima leitura de um programa que considero tosco e inassistível. e o que me dá tanta raiva do programa não é o programa em si, mas ter que aturar a leitura que 99% do público faz e que se reflete nas eliminações. prefiro evitar o stress e ignorar

    ResponderExcluir