Páginas

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sorria, meu bem!

Por mais contraditório que isso pareça, dada a cara feia com que ela geralmente te olha, tudo o que você precisa fazer em relação à vida, muitas vezes, é sorrir. Você pode rir dela, com ela, ou, simplesmente, para ela. Mas você precisa sorrir. Somos escravos da boa aparência, e nada é mais agradável que um sorriso, mesmo forçado.
Eu acordo todos os dias sorrindo. Na verdade, não é algo natural – nem poderia, eu odeio acordar. Mas aprendi, em algum momento da vida, que acordar sorrindo faz seu dia ser melhor. Já não me lembro de quando não o fazia, não posso portanto comparar. Mas é um hábito simples, e uma dessas superstições que não custam nada. Acordo, relaxo os lábios, levo as bochechas em direção às orelhas e tenho o sorriso mais falso do dia. Sem mostrar os dentes, sem sentir vontade, sem aparentar o menor vestígio de alegria. E piso primeiro com o pé direito no chão, é claro. É importante acreditar!
Ao longo do dia, sorrio ainda muitas vezes, e, em algumas delas, com o mesmo esforço do primeiro sorriso matinal. A nossa rotina prevê situações assim com muita freqüência. A todo instante, somos testados e precisamos demonstrar nossa satisfação em estarmos vivos, ou nossa resignação com a vida que levamos, ao menos. E é o que as pessoas esperam de nós. Basta você não sorrir e “está com algum problema”, “tem que haver um porquê”, e todos te cobrarão explicações que você – muito provavelmente – não saberá dar. O sorriso deixou de ser uma exaltação para demonstrar felicidade e se tornou o normal, o esperado. Não sorrir é que é estranho.
Não confio em pessoas felizes. Não gosto delas e, principalmente, não confio. É claro que o mundo nos oferece milhões de motivos para sorrir, mas, a cada um deles, corresponde uma negativa. Não quer dizer que, para cada sorriso, você deve uma lágrima, mas que, por mais que você seja triste ou feliz, não pode ser apenas uma das coisas. Ninguém é somente feliz ou somente triste. Na verdade, alguns são, e é por isso que não gosto deles. Pessoas felizes demais são alienadas, ao passo que as tristes são amargas. E quem tenta passar por alguma dessas é falso.
Pessoas “normais” são normais durante a maior parte do tempo, riem quando estão felizes, e choram quando tristes. E essas explosões acontecem, ou deveriam acontecer, de maneira equilibrada. É sempre bom sorrir mais, mas é importante sofrer um pouquinho às vezes. E o que não dá para entender é exatamente alguém não entender isso. Também a tristeza é importante, e existe. Vive escondidinha dentro de nós, numa camada espessa, próxima à superfície. E se espalha sob a pele, tomando todo o nosso corpo bombeada pelo abrir e fechar de nossos sorrisos mecânicos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário