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sexta-feira, 29 de maio de 2009

Bom dia, machão.

Todo mundo tem um dia de machão na vida. É claro que há aqueles que são machões todos os dias, mas esses definitivamente não são a maioria. Você tem o seu dia de machão quando faz uma duas ou duzentas coisas, em um curto período de tempo, que nunca imaginou que conseguiria fazer. De enfrentar um crocodilo faminto a trocar o pneu de um carro no acostamento de noite na chuva (e essa escala é ascendente, porque eu prefiro o crocodilo!). Esfrega a mão na cara da sociedade e diz “oi, quem é que manda aqui?”. Ainda não são nove horas da manhã e eu já sei que hoje será um dia assim.
“Falta de sorte” é um jeitinho covarde de falar do Azar. Muito utilizado por pessoas que, por razões óbvias, preferem não o tratar pelo nome. Como já não dá mais tempo e eu estou perdido mesmo, não vou precisar me preocupar com eufemismos.
Eis que, hoje, o azar me pegou! Minha semana já começou bem ruim, com um tapa da vida na cara no domingo e uma voadora no pâncreas já na segunda-feira. Chorei, sofri, mas nem pude me descabelar o suficiente porque não tive tempo. É, sabe aquele tempo que a gente precisa ter pra sofrer? Aquele dia inteiro deitado na cama, rolando de um lado pro outro em posição fetal, com o punho cerrado enfiado na boca. Pois é, eu não tive – e não terei. Na terça-feira de manhã, já estava na Faculdade colocando quatrocentos certificados em ordem alfabética, carregando caixas e inventando ofícios. Na quarta, uma deliciosa tarde sob um aterrorizante ar condicionado (e, desse sim, eu tenho até nome de falar o nome!), mais reuniões, mais caixas e mais ofícios, e um jornal, é claro. Contei que ainda preciso fechar a edição de um jornal? Aulas, eu já não assisto mais. Na quinta, quinze horas seguidas na Faculdade, com roupa social, sorriso no rosto e crachá de “Organização”, sorrindo pra todos os filhos da mãe que só queriam reclamar. Um congresso para militantes, onde não me falta aparecer nada (eu espero). De Nokia Tune (o mesmo celular em três momentos distintos!), a um cara chorando na platéia, passando por uma travesti vestida de cigana e uma senhora barraqueira de turbante que, por – muito – pouco, não me deu uns sopapos.
Aí, na sexta-feira, em que eu tenho três convites diferentes para sair (nada demais, mas convites, ora!), eu acordo cedo, picoto a cara com o barbeador, roubo a camisa mais linda do meu pai, construo um topete (que já desmontou escorreu e virou franja) e faço o possível para fingir que tenho alguma auto-estima, dá tudo errado. “Picotar a cara com o barbeador” não foi uma hipérbole, estou todo cortado. Demorei a levantar, atrasei e, quando estava tudo pronto, meu portão eletrônico estragou. E não foi uma estragadinha não, estragou mesmo, não funcionou. Fiquei mais de uma hora em pé na garagem com o controle na mão. E o que eu fiz para acreditar que tenho o gene dos machões? Pois então, esses portões eletrônicos possuem um sistema “secreto” para ocasiões como essa. Só que, para mim, ele era secreto mesmo. É um gancho, que a pessoa arranca, e o portão passa a funcionar manualmente. Gastei “apenas” uns vinte minutos procurando, eu acho. Não podia abaixar demais, nem pular. Contei que estou todo de social? Encontrei, mas, opa!, não dava pra arrancar com a mão. Calma, toda casa tem um alicate. Eu disse toda?
Cinco minutos no sótão e eu já tinha telefonado pra família inteira. Contei que eu estava sozinho? “Peça um pro vizinho”, disse a minha mãe, finginfo ignorar o horário e tentando me acalmar. Fiquei nervoso e passei mal. Por mais machão que eu estivesse sendo, enfrentando um portão maior e mais pesado que eu, e sem as ferramentas necessárias, sou um ser humano. E o que os exemplares da minha espécie fazem em momentos assim? Correm pro banheiro, é claro. Eu não contaria essa parte baixa da história se não fosse fundamental para o próximo acontecimento, certo? Certo. No banheiro, que é ao lado do quarto do meu irmão, lembrei que ele já fez dois cursos técnicos, e, com a ignorância que me é peculiar, encasquetei que ele deveria ter um alicate por isso! Como uma pessoa faz curso técnico e não tem um alicate? Manicures têm...
Concordo que ele deveria não ter só pra eu aprender a ser idiota, mas ele tinha. Ponto pra mim! E, melhor, tinha dois! Daqueles pequenos, de consertar computador. Voltei pro portão. Com os dois alicates (menores que o gancho) e toda a minha destreza, foi algo realmente digno de palmas. Contei que o rádio do carro estava ligado? Durante todo esse suplício, a “doce” voz da Ana Carolina berrava “acabou, agora tá tudo acabado” ou “eu vou de escadas pra elevar a dor”. Trilha sonora da coragem é o nome disso.
Pelo que sabia (mais ou menos), retirado o gancho, era só empurrar para cima. Não deu! Empurrei pra baixo, pra frente, pra um lado e pro outro. E nada. Como o forte do machão aqui não é a força, muito menos a paciência, dei a volta por fora, segurei bem, e joguei todo o peso para trás. Quebrou! Oba, agora eu preciso dar conta de um portão quando os outros chegarem! Claro que um machão, nervoso, suado e descomposto, não se preocupa com isso. Levantei o portão no muque mesmo e fui pro carro, tinha uma aula pra assistir bem pertinho de onde o vento faz a curva, que já havia até começado, há uns trinta ou quarenta minutos. Dei dois passos e o portão desceu. Voltei, levantei de novo, saí, e ele desceu outra vez. Contei que ele Q-U-E-B-R-O-U? E “quebrou” do verbo “não funciona nunca mais”! Não ficava firme de jeito nenhum. Eu precisaria que alguém segurasse para eu passar com o carro. Mas estava sozinho, e, àquela hora, quem precisava sair já havia saído. Rua deserta! Bom, por mais machão que eu quisesse ser, era um só, contra o azar, que a gente saber ser infinito.
Agora, está tudo sob controle. Minha empregada chegou e vai segurar o portão para mim. Só não precisa ser agora, porque, a aula, eu já perdi mesmo. Ainda preciso resolver um problema de manhã e seguir para o congresso, para mais um dia de conflitos e desaforos. Mas, enquanto não chega o horário do meu próximo compromisso, decidi escrever. E alguém quer adivinhar o que aconteceu?
Um ponto para quem, sem nem pensar, disse “o computador travou!”. Mas mais dez para quem completou com “o machão deu logo um jeito”!
Contei que eu salvo tudo?

Um comentário:

  1. " “Falta de sorte” é um jeitinho covarde de falar do Azar." > Depois de ler essa até calei a boca.
    "a um cara chorando na platéia, passando por uma travesti vestida de cigana e uma senhora barraqueira de turbante que, por – muito – pouco, não me deu uns sopapos." > Adoro seu jeito de escrever. Me mata de rir às vezes.
    "Como uma pessoa faz curso técnico e não tem um alicate?" > Eu faço curso técnico e não tenho um alicate. > Bem, eáh, é de química.
    "Trilha sonora da coragem é o nome disso." É. Me diverte mesmo.
    "Levantei o portão no muque mesmo..." > Orgulho de você.
    Ai, ai. Antes que você saia correndo de casa - com o portão estragado - e venha dar um soco na minha cara, vou parar por aqui. Saudade de você. Relaxa que no final tudo dá certo. ^^

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