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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Não sei mesmo.

Minha tia comprou uma terrinha numa cidade pequena do interior há muito pouco tempo. Logo de início, conheceu um vizinho “diferente”. Muito nervoso, andava sempre armado e brigando com tudo e todos. Em um churrasco, contou sua sina: jamais conseguira realizar o sonho de ser médico. Tornara-se químico por frustração e policial por necessidade. Não se casou, aposentou, e enlouqueceu.
Nos poucos dias que tiveram de convívio, ele prometeu matar alguns vizinhos, tentou paquerar a minha mãe (safado!), bebeu bastante cerveja e repetiu seus eternos bordões “vou acabar com a minha vida” e “minha vida não vale nada”. Não se dedicava a nenhuma atividade. Só vivia, e reclamava disso.
Na última quarta-feira, tudo acabou. Não sei se cumprindo o prometido, ou apenas querendo cessar o martírio de uma vida sem sentido, atirou no próprio ouvido e morreu. Não sei se deixou família, dívidas, saudade ou lembranças. Só que morreu. Não vai mesmo ser médico, sequer paciente. Morreu. Não sofre mais, não briga mais, não tem mais do que reclamar. Morreu. Eliminou todos os seus problemas, e encerrou qualquer possibilidade de os vencer.
Não sei o que mais me espanta – porque, sim, coisas assim ainda me espantam -! Se é a falta de amor a si mesmo, se é a importância de um sonho, ou a irrelevância de uma vida. Como o futuro pode depender tanto das nossas escolhas? E, mais ainda, da nossa dedicação, da garra com que buscamos nossos objetivos. Só sei que, de pessoa triste, ele se tornou uma lembrança em poucos segundos. Eu nem o conheci. Ouvi dois casos e o terceiro já era o anúncio de sua morte. E eu não sei explicar o que senti.
Pois é. Morreu. E agora? Não consegui ainda nem tirar uma lição disso...
Só a velha importância dos sonhos. Mais que lutar para os realizar, é importante TERMOS sonhos. Quem não sonha não tem nada a perder. E eu não digo apenas grandes sonhos como o dele, que, dada a dificuldade de realização, tornou-se facilmente "impossível" e lhe rendeu uma vida de desgostos. Mas sonhos pequenos também, objetivos.
O que nos prometemos antes de dormir é o que nos dá forças para sairmos da cama pela manhã. De estudar para ser médico a comer menos no almoço. Ter metas torna a vida uma batalha, e vencendo ou perdendo, é importante que queiramos sempre lutar. Você pode ter um sonho bobo, mas precisa sonhar. Ou não terá nada a perder. Tudo o que construímos torna-se obsoleto assim que concreto. O que move a vida é o que ainda não possuímos.
E, quando conquistamos tudo ou não desejamos nada, a nossa vida vale tanto quanto a dele. Uma bala, uma notícia, um post. Talvez uma reflexão!

Um comentário:

  1. E para aqueles que acreditam em reencarnação, espíritos e coisa tal, esse moço-lembrança ainda passará um perrengue. Porque dizem os kadercistas e estudiosos da doutrina espírita que o suicídio faz com que a pessoa se arrependa amargamente de ter tomado tal atitude. Que seja-lá-quem-for o tenha!

    Quanto ao seu post quando conquistamos tudo ou não desejamos nada, a nossa vida vale tanto quanto a de um moço que atira no próprio ouvido. Isso é uma lição e tanta.

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