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domingo, 28 de junho de 2009

O Anel

Nos – não tão distantes – idos de 2003, enquanto cursava a sétima série do Ensino Fundamental, meu professor de Português estava escrevendo um livro. Reunia, à época, crônicas velhas de sua juventude e buscava inspiração para escrever mais e mais. Talvez por isso, lia sempre um texto (de sua autoria ou não) às segundas-feiras. Não lembro se era o primeiro horário, mas ficou tradicional e eu já começava a esperar pelo texto da segunda logo no domingo. E, de todos os textos do ano, eu só me lembro de um, o de que gostei menos.
Era a historia de um rei que ganhara, de um sábio, um anel com uma mensagem que, entretanto, só deveria ser lida em um momento de profundo desespero, quando não houvesse outra saída, nada mais a ser feito. Os anos se passaram sem que o rei jamais lesse a mensagem do anel, ainda que ele não saísse de seu dedo. Um dia, seu reino entrou em guerra com outro, foi invadido e o autor narra, a partir daí, uma série de coisas ruins. E o rei? Nada de ler a porcaria do anel.
O texto era bem escrito, deixava todo mundo curioso. As coisas aconteciam e o danado do rei nunca se sentia “sem saída”. E, quando eu já não agüentava mais a expectativa, o rei foi encurralado no alto de um penhasco e, enfim, abriu o anel, onde se lia “e isso também passará”. Lembro que não fui o único a soltar o ar do peito, baixar a cabeça na mesa e, com incredulidade no olhar, encarar o professor, com cara de “não pode ser só isso”.
O exército inimigo, então, foi rechaçado, o rei salvo e tudo voltou ao normal no reino. Como gostar de um texto assim? Que merda de “e isso também passará”? Pior, como entender isso tendo apenas 13 anos? Tanta coisa para se dizer, claro que não resolveria problema algum, mas talvez tivesse mais impacto. Quem disse que o passar do tempo resolve tudo?
Penso nisso desde então. Esperei, ansiosamente, o dia em que a mensagem faria sentido também para mim. E, apesar de saber que talvez eu entenda ainda mais no futuro, acredito que faz um pouco mais de sentido agora. Ela só resume tudo o que eu nunca entendi durante toda a vida exatamente por não saber esperar. Meu maior problema sempre foi essa ansiedade. Ansiedade que me faz grosso certas vezes, inconseqüente, egoísta. Não tenho medo da morte, nunca tive, tenho medo de não viver o suficiente. E isso sempre fez com que eu buscasse resolver todos os meus problemas. Não sei esquecer ou ignorar, não desisto. Durante esses quase vinte anos, lutei por tudo o que queria e, mesmo quando não logrei êxito, não esperei passar com o tempo.
E já teria lido o segredo do anel no primeiro ventinho que soprasse, não sei esperar. Nem tudo, no entanto, depende de nós nas nossas vidas. Claro que, ainda nesses casos, há sempre uma coisinha ou outra a ser feita, mas, às vezes, não é a melhor opção. Precisei ver de fora a minha vida para entender o quanto pequei por essa mania de resolver tudo, de explicar tudo. Há coisas que as pessoas precisam descobrir, ou não acreditarão se você disser. As dores, você não pode simplesmente arrancar ou esquecer. E as mentiras podem se tornar imensas, mas nunca serão eternas.
E, quando a realidade mostra-se assim tão cruel, não há muito a ser feito, a não ser esperar. É difícil esquecer, sofrido reviver e inútil tentar explicar ou entender. Você só precisa ser honesto consigo e paciente. Simular alegria só comprova o desespero. Quando felizes, sorrimos. Por que não chorar quando tristes? Ninguém é pior por ter sentimentos, pelo contrário.
A vida põe e tira pessoas do nosso caminho. E você precisa estar sempre pronto para as receber ou ver partir. Sem estacionar numa esquina, porque o tempo não para pra você se recuperar de nada, por pior que você esteja. E ele passa mesmo. Tudo passa! Se não trouxer de volta o que faz falta, faz, pelo menos, com que essa falta diminua, até sumir ou não, vai saber... E não é preciso esperar anos e anos não, tempo são anos, dias, horas ou segundos também. Você não é o mesmo de ontem, e já será outro ao fim dessas palavras. Sutil ou não, toda diferença é uma evolução. E evoluir é só um conceito, porque a ascendência ou decadência somos nós quem escolhemos.
O texto não me marcou sem motivos. Entender a insuficiência da minha vontade foi, sem dúvida, a coisa mais dolorosa que já precisei fazer. Aceitar a superioridade do tempo, me ver impotente e incapaz. Mas isso também passará, tudo passa... Como bem dizia um anel por aí...

2 comentários:

  1. Na época, eu também não entendia tão bem quanto agora. Mas lembro que a história me marcou, diferentemente da forma que foi com você, de maneira positiva... Entendi como se o "e isso também passará" fosse uma forma de alívio, que nos momentos difíceis é muito importante lembrar que tudo um dia passa.

    E, desde então, nos momentos de grande desespero e dificuldade para mim, é essencial lembrar que "isso também passará".

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