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terça-feira, 16 de junho de 2009

Velha Vida Nova


Analisando o pouco que sabemos das histórias de vida dos “novos ricos” do nosso país, é possível encontrar alguns pontos em comum. Cantores sertanejos, jogadores de futebol, pagodeiros, todos tiveram infância pobre e muita dificuldade na luta por seus sonhos. Alguns precisaram trabalhar em outro emprego, treinar durante o dia e ser porteiro a noite, cuidar de horta ou carregar caixas de segunda a sexta para cantar apenas nos sábados. Histórias, sem dúvida, de superação, de esforço, garra. Mas há um outro ponto em comum ainda: os casamentos. Na maioria dos casos, esses guerreiros casam-se cedo. Antes dos trinta, têm uma esposa, também pobre e de origem simples, e logo uma penca de filhos.
Essas mulheres, em grande parte dos casos, são suas maiores fãs, as que mais acreditam e investem nos sonhos dos maridos. Trabalham fora, cuidam da casa, criam os filhos. Algumas chegam mesmo a sustentar a família para que o “artista” possa correr atrás de seus sonhos. Sacrificam suas vidas em prol da vida daqueles que amam. São felizes, é claro, não pela realização de seus sonhos (e quem tem tempo para sonhar nessa realidade?), mas pela simples busca do sonho do outro. Mulheres que, sem saber, fazem o possível para entregar ao mundo os homens que tanto amam.
Quando “famosos”, com um CD gravado, um bom contrato ou um passe valioso, que seja, ingressam em um novo universo. Fãs, televisão, festas, glamour, mulheres... Conhecem, diariamente, loiras esculturais, de pele macia e cabelos cheirosos, nada nem parecido com as desgastadas, de mãos calejadas, que têm em casa. Aquelas modelos das revistas, antes vistas como inatingíveis, encontram-se ali, ao alcance das mãos. E, num ambiente como esse, os homens não conseguem mais conceber a presença de suas antigas mulheres. Homens são egoístas, minha gente. Por mais que amem uma mulher, gostam mais de si mesmos, de suas imagens. Querem aventuras, elogios, querem fazer inveja nos outros. Uma mulher apaixonada, batalhadora, de princípios e boa índole tem seu valor, é claro. Mas não sai bem em capa de revista. Para isso, existem as malhadas, as popozudas. Uma infinidade de gente interessada em pegar um “homem pronto”, que alguma sonsa qualquer ajudou a construir. E, o final da história, não há quem não imagine.
Guardadas as devidas proporções, isso acontece a todo instante, e debaixo dos nossos olhos. Com conhecidos ou pessoas próximas. Aconteceu com uma amiga, há não muito tempo. Ela namorou por um ano com aquele que parecia o homem de toda a sua vida, o pai de seus filhos, um amor inexplicável. A família era contra e dificultava muito por isso. Foi um ano sofrido, lembro porque acompanhei. Ele a esperava no final da aula para almoçarem, e iam, de ônibus, para a casa dela, onde ele se despedia e seguia para seu trabalho, era uma forma de passarem algum tempo juntos. Esperava em sua rua, nos fins de semana, horas e horas sob o sol, para vê-la por alguns minutinhos, acompanhá-la até a padaria, o supermercado, ou entrar bem rapidinho aproveitando alguma saidinha dos pais. Era difícil, claro, mas eles se amavam e o amor “supera tudo”. O namoro ficou sério, até mesmo porque não é possível não levar a sério um homem desses, que abandonara os amigos, a vida boa que levava antes, para estar sempre disponível aos horários de uma menina mais nova, mimada e complicada. Que abrira mão de tanto para receber tão pouco, e sem reclamar, “compreendendo” sempre tudo.
Eis que a vida da garota mudou. Terminou o terceiro ano, passou na primeira etapa do vestibular e, no último dia de provas da segunda etapa, completou – os sonhados – dezoito anos. O restante veio de uma vez: aprovação no vestibular, carteira de motorista, um bom emprego e um carro. De uma hora pra outra, a menininha vigiada pelos pais tornou-se uma mulher consideravelmente independente. Enfim chegara o momento há tanto idealizado por ele, a hora me que eles poderiam se ver mais, sair mais, conviver mais. E não foi o que aconteceu. Ela era “muito nova” e “cheia de coisas a experimentar” antes de se envolver em algo tão definitivo. O “cheirinho de pra sempre” a assustava terrivelmente, e com razão. O que ela contaria de divertido aos filhos e netos? “Namorei, casei, envelheci e vou morrer”. Cadê toda aquela “diversão” da juventude? Foi o que ela quis conhecer então. A partir disso, tudo era motivo para brigas, choro, discussões homéricas. A paciência mínima que um relacionamento exige tornou-se algo impossível. E, com a primeira desculpa que encontrou, terminou o namoro e mandou ver. Foram inúmeras festas, fins de semana no clube, viagens a dois... um enredo de dar inveja, em que o par romântico variava a cada cena. Levou, assim, uns seis meses. Uma pausa na vida normal para a vida “ideal”. Mas desistiu depois. Parece que se cansou. Em meio a tantas bocas, braços e abraços, faltava algo específico. E, pior, algo que ela conhecia bem, e sentia saudades. E como os seres humanos são ordinários demais ou bobos demais, não existe meio termo, ele permanecia por perto, esperando. Seu príncipe encantado, inquilino de sua “rotina cansativa”, estava ali, a espreita, vigiando a primeira gretinha para retornar ao seu posto de protagonista. E já estão juntos há mais de um ano novamente.
Hoje, ela entende o que aconteceu – ele sempre entendeu, eu acho. Atribuímos um pouco da responsabilidade pelo que não é bom nas nossas vidas àqueles que temos por perto, e, quando tudo enfim muda de forma, também ele se torna obsoleto. Aquele amor eterno torna-se insuficiente, deixa de ser “bom o bastante” para nós na nossa “nova fase”. As coisas melhoram e a gente quer dividir isso, festejar isso. O ser humano já não é um animal monogâmico por natureza, essas reviravoltas apenas confundem ainda mais suas cabeças. E gente confusa não pode ficar parada, estanque. Gente confusa corre, grita, tira a roupa.
Só que tudo isso já está por aí, escrito nos contos de fadas, livros de auto-ajuda e nos desfechos dos filmes românticos. Todo mundo sabe e repete que o importante é o amor. Que essa infinidade de parceiros é a melhor forma de se sentir sozinho, vazio. Que “mais vale um pássaro na mão que dois voando” ou “um homem feio do seu lado que dois lindos se beijando”. A gente sabe, mas acredita? Claro que não. Os jovens, principalmente, são mais empíricos que racionais. Acreditam apenas no que vêem, no que experimentam, não basta ouvir ou ler, é preciso sentir. E isso é ótimo, claro. Experiências dos outros são só experiências dos outros e pronto. Mas implica um risco imenso. Ou podemos sair pra “ver a vida” e não encontrar portas abertas no retorno. Há sortes e sortes, pessoas e pessoas, mágoas e mágoas. Enquanto vemos um lado da vida, deixamos sempre alguém olhando pro outro. E o tempo que levamos até descobrir aquilo de que realmente gostamos é muito maior que o necessário para saber o que não queremos.
E a vida segue assim, com linhas tortas, paralelas e concorrentes, em que deixamos pessoas para trás nos vértices, e nem sempre conseguimos voltar até lá por um segmento apenas. Levamos, de cada um, um aprendizado, lembranças boas e ruins, saudades. E, às vezes, é só isso mesmo o que nos resta.

Um comentário:

  1. mas a diferença tah exatamente aih. e se chama amor.
    porque quando a gente ama alguem ama sem esperar retorno. ama porque ama e naum tem explicaçaum.
    essas pessoas vao ter sempre a certeza de terem amado de verdade mesmo perdendo seus amores. e isso jah eh o bastante!

    PARABENS PELO TEXTO!!!

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