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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

All-face

“Oi, meu nome é Caio, eu tenho 20 anos e não confio em pessoas!”.
Não confio mesmo. Não que eu não acredite no que dizem ou sinta medo delas. Não confio no sentido mais básico, não consigo acreditar em nada que dependa de alguém que não eu. E não por me considerar melhor, mas por saber que só as minhas atitudes e comportamentos dependem de mim. O resto é imprevisível e inalterável. Não confiar em ninguém impede que eu me entregue, que eu dependa, porque eu sei que ninguém tem obrigação comigo, só eu mesmo.
Quando a gente confia em alguém, principalmente quando gostamos dessa pessoa, criamos expectativas. Temos sempre planos que envolvem atitudes nossas e reações dela e atitudes dela com a mais variada gama de reações nossas. Quando confiamos, esperamos retorno, e eu não sei esperar. Não consigo submeter toda a minha felicidade à inconstância de alguma mente doentia que não a minha. Se for pra sofrer, que eu sofra sozinho, não por ou com alguém.
E isso não se resume ao campo afetivo. Pessoas não são confiáveis para nada. Do mordomo que assassina friamente ao patrão àquele melhor amigo de infância que te rouba tudo assim que estabelecida uma sociedade. Saiba que todo mundo vai te decepcionar um dia. Ontem, hoje ou amanhã. Fora os que nos decepcionam todos os dias. E é essa questão da decepção que me atormenta um pouco.
Assim como tudo na vida, não confiar em ninguém tem um lado bom e um ruim. O bom é que é bem difícil me decepcionar. E o ruim é que, impressionar, é ainda mais. Não que eu perdoe tudo ou “entenda erros como pequenos deslizes”, mas eu espero tão pouco de todos, que a baixaria não me assusta. Parto do pressuposto de que ninguém presta. E o que é que se pode esperar de quem não presta? Então! E, não prestando, é muito difícil alguém conquistar minha admiração instantânea. Não deveria ser, seguindo a lógica, já que qualquer atitude decente deveria quebrar a primeira impressão ruim que eu já tenho de qualquer um, mas é. Eu desconfio de gente boazinha, não acredito em boas intenções e sempre acho que, se alguém está sendo legal comigo hoje, é porque quer ser bem ruim amanhã. Não bastasse o empecilho para a vida em sociedade, alguém calcula a dificuldade que eu tenho para me relacionar “afetivamente”.
Amor à primeira vista eu já aceitei que não é pra mim. Jesus pode voltar em carne e osso que eu vou sempre achar que é o diabo disfarçado. O único jeito, então, é conquistar aos poucos a minha confiança e a minha admiração. Porque é nisso que se fundamenta um relacionamento: confiança e admiração. Tudo o que eu – simplesmente – não consigo nutrir por quase ninguém. O que me torna, a princípio, uma pessoa seletiva, e, analisando mais profundamente, um eterno condenado à solidão. Porque não ser de todo mundo é até louvável, mas não ser de ninguém está longe de ser normal.
Partindo do pressuposto de que ninguém é perfeito e, pra mim, todo mundo tem o mesmo tanto de caráter (nem um pouco), a personificação dos meus sonhos de infância pode já ter passado pela minha vida ou estar presente nela nesse exato momento. E eu vou ver? Claro que não. Vou tratar com a mesma indiferença e o mesmo medo com que trato qualquer ser humano que se aproxima. E, se eu tentar baixar a guarda, vou me frustrar com alguém (porque, que ninguém vale a pena, não dá pra negar) e me desiludir com a vida e os seres. Ou não, porque eu posso acertar na mosca e ser feliz pra sempre. Porque, na próxima encarnação, eu vou ser otimista, prometo.
Não sei por que estou falando sobre isso. Na verdade, sei sim, é que tenho pensado muito em reencarnação desde uma conversa com a professora orientadora do meu grupo de estudos, encostados no balcão de um bar, dançando e cantando hits dos anos 80. Na oportunidade, manifestei meu desejo de reencarnar na pele de uma alface e ninguém me entendeu. A princípio, porque poucas palavras foram suficientes para convencer a todos, e já terei amigos na horta em que nascer, tenho certeza. A confiança no mundo, de que tanto reclamei, faz parte das mudanças que quero promover em mim ainda durante essa vida – apesar de não saber como. Mas a idéia da alface eu mantenho. Quero ser algo uma planta para ser fixo. E a questão nem esbarra naquele discurso piegas sobre raízes, terra e etc. Eu quero é não ter que andar mesmo, não ter que correr, não ter pressa. E um vegetal é melhor que uma tartaruga apenas por não precisar viver cem anos. Quero não precisar de muito esforço para nascer, crescer e me alimentar. Pense na polinização feita pelo vento, que linda, nos nutrientes vindo direto do solo, do sol nascendo e se pondo todos os dias sem que eu precise mover um centímetro. É isso o que eu quero. Assistir à vida. Ver tudo começar e acabar, saber do que acontece, sem precisar fazer parte. Eu quero, por uma existência ao menos, não ter dilemas, não ter conflitos. Viver a vida dos outros e não ter a minha para me ocupar. E por pouco tempo, o que é ainda melhor. Sem a possibilidade de planejar nada a longo prazo. Até porque alfaces vivem pouco.
E, se eu não for pisado por nenhum animal ou castigado por alguma seca – dá pra acreditar que essas serão minhas únicas preocupações? –, ainda termino a vida gostosinho e rodeado de tomates na mesa de alguma família. Alimentando, sendo ÚTIL. O que essa minha vida humana e cheia de “oportunidades” está longe de me garantir.

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