Páginas

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A gente também acredita


Termina de ajustar o vestido no bumbum e olha o espelho. Está bonita, a cor é linda mesmo. Destaca seus seios. Melissa tem seios lindos, que ninguém vê, obviamente, e o vestido soube valorizá-los. Por um instante, de tão satisfeita, pensa em por que nunca usou aquele vestido novo, comprado há quase quatro meses, e lembra que ele era sexy demais pra trabalhar, e colorido demais para o velório da vizinha, há pouco mais de um mês, data do último “banho de sol” de Melissa. É, a vida não tem sido legal.

Mas Melissa não quer pensar nisso. Não hoje. Hoje, ela está linda com seu vestido novo e seus seios durinhos, para mais um encontro. “Mais um” não porque sejam muitos, mas porque nunca dão em nada mesmo. Melissa é bonita, muito bonita até. Alta, morena, elegante e muito inteligente. Sabe conversar sobre tudo e tem sempre uma boa piada. É compreensiva também, boa amiga, boa ouvinte, adora criança, a perfeita mocinha para casar. Não sabe cozinhar, é verdade, mas é bem sucedida. Aos 28, já se formou dentista e é sócia em um consultório médio em flanco crescimento. Solteira. É, eu disse solteira.

Não teve muitos namorados. Na verdade, três. Um muito burro, um muito feio e outro de quem ela quase não se lembra e nem sabe por que terminou. Se era ele (o amor de sua vida), jamais saberá. E, agora, aos 28 anos, temendo o fim solitário, sente-se uma imbecil marcando encontros pela internet. E se arrumando toda para encontrar um advogado de 35 anos e 1,60m, quase 20 centímetros menor que ela (opa! boa lembrança. nada de salto!) para um cineminha. A idéia era sair pra dançar, mas ele tem 1,60m e não seria elegante. Melhor um cineminha mesmo, onde poderão conversar sentadinhos. Depois, um restaurante, onde permanecerão sentadinhos. E, se ele for realmente atraente (contei que ela nem viu fotos?), o apartamento dele, onde poderão ficar deitadinhos. Pensar que sexo é o melhor dentre os possíveis finais para o seu encontro dá um pouco de preguiça até de sair de casa. Mas não pode. Prometeu às amigas. E nem haveria de ser tão ruim. É só acreditar.

Estava adiantada. Sentou-se em frente à TV e se pôs a repensar os últimos meses, bem como as conversas com as amigas. Elas acusavam-na de escolher demais. Escolher demais? Como se tivesse opções? Injustiça! Tem mesmo um ideal de homem perfeito, mas nunca exigiu isso de nenhum dos imperfeitos com quem saiu. É verdade que não gostou de nenhum deles também, mas gostar não é algo voluntário, que dependa apenas da vontade. Prefere os inteligentes, mas eles não gostam muito de sexo. Também, pra que sexo quando se pode escrever uma poesia, não é? Os bons de cama, até então, eram burros demais. Ninguém precisa ser doutor, mas “vírgulas” são sinais de pontuação e “pílulas” são anticoncepcionais, não o contrário. E há sempre um mínimo que toda mulher que diz se valorizar deveria exigir. Ou não.

E ali estava ela outra vez. Preparada (estava?) para mais uma decepção, mas cheia de expectativas, é claro. Chovia e sua vontade mesmo era ficar em casa. Cogitou ligar a banheira, cortar os pulsos e sangrar até o fim, mas quis tentar mais uma vez. A gente tem que acreditar, repetia baixinho. E foi. Foi porque tem hormônios e pertence ao “extinto” grupo das mulheres que ainda precisam beijar na boca. E porque é importante acreditar. Boa sorte, Melissa. A gente também acredita!

Nenhum comentário:

Postar um comentário