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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Quanto custa uma crônica

Para Isabel Mendes

Uma amiga me pediu, há algum tempo, que escrevesse uma crônica para um jornal de pequena circulação. “O jornal ficou pronto, mas está muito seco, falta algo de humano nele”, ela me disse. Mais que a honra pela escolha e o orgulho da indicação, o convite preencheu-me de muito medo, afinal, um jornal é sempre um jornal. E, mais que isso, é tão difícil, hoje em dia, escrever algo de que as pessoas gostem. Na verdade, difícil é escrever algo que as pessoas leiam. Poucos são os que dedicam parte dos seus dias à leitura desses textos “humanos”. Tempo vale dinheiro e o Brasil é um país muito pobre, não pode se dar esse tipo de luxo.

O mundo evoluiu tanto, que o tempo não se deixa mais seguir. Nossos transportes são modernos como nunca, nossos meios de comunicação, os eletrodomésticos. Decisões importantes são tomadas em um clique, publicações desatualizam-se antes mesmo de serem impressas. Tudo caminha a uma velocidade tão alta, que não conseguimos acompanhar. É estranho dizer, mas o mundo anda tão veloz, que nós, homens, estamos sempre atrasados.

Além disso, tempo é dinheiro, e não há nada que as pessoas busquem mais, nos dias atuais, que essas oito letrinhas. DINHEIRO. Quanto mais rápido, melhor. Daí o microondas, o fast food, a banda larga, o trem bala, o avião. Pagamos mais caro pela rapidez, porque acreditamos ser ela a origem de ganhos futuros. E, nessa correria geral, nessa pressa coletiva, quem se vê dedicando, diariamente, alguma fração do seu dia a uma boa leitura? Esses poucos precisam, ainda assim, conciliar. Ler nos ônibus, ouvir música no trabalho, dormir tarde para ir ao cinema. Porque a tevê e os jornais querem o mesmo que nós, dinheiro. E a nossa mídia é uma indústria de más notícias. O que vende é sangue, comoção popular. Cada crime hediondo praticado no Brasil é como uma nova copa do mundo: milhares de pessoas se amontoando em frente às televisões em casa, publicações e mais publicações com as mesmas capas, as mesmas fotos, tempos áureos da mídia impressa, que tem novidades diárias, publicações diárias e aquela repercussão de encher os olhos.

Quando passa a comoção, e até que alguma outra criança seja morta e encontrada em pedacinhos ou alguma família reclame a falta de alguma mocinha desaparecida, retomamos nossas vidas normais. Nossas vidas de afazeres, de pouco tempo para essas coisas, de notícias rápidas, objetivas, de fofocas bobas sobre a vida de famosos mais bobos ainda.

A isso se deve o sucesso desses jornais de 25 centavos. Algum gênio percebeu essa realidade e reuniu, em uma publicação, tudo o que uma pessoa média deseja saber, por um preço acessível e em uma fácil e breve leitura. Por um quarto de real, você vê, já na capa, uma desgraça bem grande (uma chacina, um infanticídio...) na parte de cima, as parciais do futebol de um lado e uma mulher quase pelada do outro. Já seria o suficiente, mas não pára por aí. Dentro, há, ainda, o horóscopo e o resumo das novelas. Meu Deus, a perfeição! Do que mais um ser humano precisa?

Frente a isso, eu me pergunto o que a alegria do momento não me permitiu perguntar a minha amiga: as pessoas querem uma crônica? Seus leitores gastarão 2 ou 3 minutos de seus preciosos tempos contados lendo reflexões, muitas vezes vazias de tão intimistas, propostas por algum desconhecido? Será que eles poderão fazer isso? Serei eu uma boa companhia para viagens de ônibus, horários de almoço ou idas ao banheiro? Será essa mesmo a melhor opção para um jornal em fase de criação? Talvez um mapa astral comentado ou uma coluna de fofocas faça mais sucesso. Um jogo dos sete erros... Quem quer saber do “humano” hoje em dia?

Foram semanas pensando nisso e tentando escrever algo, para não chegar a conclusão alguma. É fato que não vivemos, infelizmente, uma boa temporada para crônicas e textos literários, mas ninguém disse que eles estão proibidos. E enquanto alguém quiser ler, outro alguém precisará escrever. E é a minha amiga quem tem razão. Tudo nessa vida é questão de hábito. Um jornal que já começa seco será seco sempre, assim como seus leitores e expectativas. Se quisermos formar um público diferente, precisamos começar cedo. E, frente a tudo isso, o convite se torna responsabilidade ainda maior.

Seja falando sobre atualidades ou cultuando o amor impossível, é tão difícil prender a atenção e conquistar a simpatia dos leitores. Ainda mais com uma possível periodicidade. O desafio não deixa de ser instigante. Afinal, um jornal é sempre um jornal. Uma crônica nem sempre é uma crônica. E as pessoas? Ah! As pessoas nunca são as mesmas...

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