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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Querido ouvido,

Depois que meu namoro acabou (não, não vou falar disso, prometo) e eu briguei com a minha mãe (também prefiro não entrar no mérito), sinto que não tenho mais pra quem contar as coisas boas (e ruins) que acontecem na minha vida. Aí, hoje, eu tive um dia excelente no Juizado e precisei ligar pra minha prima na saída. Ela foi até bastante atenciosa, mas estava trabalhando e precisou encerrar dizendo “parabéns, agora você precisa comemorar, beijo, tchau”. Pergunta rápida: uma pessoa que não tem pra quem TELEFONAR vai comemorar O QUÊ e COM QUEM? Enfim. Babaca que sou, vou contar aqui no blog, a quem interessar possa.

Pra começar, eu me arrumei todo bonitinho na esperança de continuar uma paquerinha que comecei há umas três semanas durante uma audiência. Todo mundo me elogiou e as meninas disseram até que eu ando mal intencionado (deve estar escrito DESESPERO na minha testa!). Claro que não adiantou nada. Todo mundo que eu não quero ver está lá todos os dias, quem eu quero some assim, desse jeito. E aposto que vai deixar para reaparecer quando eu menos esperar e estiver descabelado ou amarrotado (Murphy!). E o que é mais legal nisso é que eu não me importei, nem me frustrei. Já fui mais apegado a expectativas, eu acho.

Caí em dupla com um estagiário novo. Odeio trabalhar em dupla e odeio estagiários novos, estava pronta a pior tarde da semana. Mas foi legal. Ele era realmente bem lento, não vou negar, mas, de repente, ganhei um horário livre, empurrei ele pra uma menina e fui tomar sorvete com outra. Assim mesmo. Virei meu crachá, fechei a sala, saí do Juizado e fui ao Bang Bang Burguer mais próximo tomar uma casquinha de baunilha e curtir meus trinta minutos de férias. Parece uma coisa boba (e talvez seja mesmo), mas percebam o simbolismo: eu uso crachá, tomo café em copo descartável de 300 ml e saio, no meio do expediente, pra tomar sorvete. Com a cara mais lavada do mundo. Começo a entender por que tanta gente quer passar num concurso público!

O lado ruim do serviço público é que seus coleguinhas não têm escrúpulos, aprenda rápido. Sedentos de inveja pelo meu sorvete, os outros estagiários me trocaram de sala, e eu sobrei pra pior de todas elas. A “minha” sala é “minha” só enquanto eu estiver dentro dela. Se sair, como saí, alguém pode pegar, como pegou. E eu e a coleguinha do sorvete precisamos ficar na última sala do corredor, a mais perto da rua. Única onde funciona celular e não tem ar condicionado, mas, em contrapartida, nunca está tudo funcionando. Um dia é o computador, no outro o scanner, a impressora, a internet... tudo funcionando ao mesmo tempo eu nunca vi.

Mas eu estava em dupla, tinha tomado sorvete e, de roupa nova, nada pode me deter. Força, Caio, mostre a eles que você pode.

As audiências foram ótimas. Rápidas e com bons resultados. Algumas até muito divertidas, como a última, em que, depois de me ouvir dizer tantas vezes “Oi, eu sou o Caio e essa é a Lívia e nós somos os conciliadores...”, minha dupla se confundiu um pouco e começou dizendo “Oi, eu sou o Caio e ele é a Lívia”, e eu precisei interromper “Não, Lívia, Caio sou eu”. Um erro aparentemente bobo, mas que rendeu horas e horas de risadas empolgadíssimas e piadinhas sem e menor graça dos três homens presentes (um autor e dois réus), porque, eu esqueci de dizer, a Lívia é bem bonita. E mulher feia que erra é burra, mulher bonita que erra é DIVERTIDA. Outra coisa legal é que formávamos um casal bastante bonitinho, não posso negar, e era legal ver cada hora um de nós ser paquerado pelos anônimos que entravam pela porta. Juizado é o novo Orkut, gente, anota aí.

Voltando ao (não) funcionamento dos aparelhos eletrônicos da sala “abandonada”, a impressora estava manchando muito a borda das folhas e, numa das vezes em que a Juíza quis elogiar meu bom trabalho (já contei que ela me adora, vive elogiando e diz que eu sou o melhor conciliador; agora, preciso contar que esse boato está se espalhando e, lógico, já há um pequeno grupo de pessoas que não gosta muito da idéia de ser pior que o menino do sorvete), reclamou das manchas nas folhas. Eu até tentei explicar que era culpa da impressora enquanto um dos que tinha roubado a minha sala abafava uma risadinha, mas ela não quis nem saber, chamou a coordenadora e, antes que eu pudesse soletrar GOL, pediu que me trocasse de sala. Nas palavras dela, um menino “bom e chique” como eu merece uma impressora “tão boa e chique quanto”. Silêncio constrangedor.

Sabe aqueles filmes em que a menina feia aparece linda, de repente, no baile de primavera? E todos os meninos querem dançar com ela e é todo aquele constrangimento clichê? Foi mais ou menos isso. Todo mundo me olhando com aquela cara de “então EU posso ficar naquela sala e ELE não?”. E eu com cara de “menino bom e chique”, que é o que sou – ou deveria ser. Por sorte, era a última audiência do dia e eu pude fugir antes que a bomba explodisse.

Já estava suficientemente feliz, não precisava de mais nada. Mas, como Deus existe, é brasileiro e simpatiza demais com a minha pessoa, deu tempo da coordenadora me procurar pra contar a boa nova: quando eu voltar dos Estados Unidos, “subirei para o gabinete”. “Subir pro gabinete”, para um conciliador, para quem não sabe, é o mesmo que sair na Playboy para uma ex-BBB, o ápice da carreira. Funciona assim: você começa como conciliador a partir do terceiro período do curso; no quinto, pode ser contratado como estagiário e, então, os mais antigos “sobem pro gabinete” e vão trabalhar diretamente com o juiz. Os três mais antigos são submetidos a uma prova escrita e uma entrevista, afinal, é a função “mais nobre” do Juizado, e só um deles vai. Uma vez no gabinete, você não precisa mais usar roupa social (porque eu deveria usar) e pode cuspir na cara de quem quiser. Só que, dizem, esse procedimento é praxe, mas não obrigatório. Meus dias no Juizado estão contados. Minha primeira “etapa” se encerra em 20 de novembro e eu já avisei que não vou continuar. Já aprendi o que poderia na Conciliação e não há nada mais que me prenda por lá, quero novas experiências, exceto, é claro, se eu fosse para o gabinete, mas não estava disposto a esperar ficar antigo para enfrentar todo esse processo incerto. Até que a minha coordenadora me “orientou” a voltar sim no ano que vem. Segundo ela, recomeçando em março, eu já serei efetivado e rapidamente estarei no gabinete da juíza que me adora. Sou conciliador e vou pro gabinete, pulando, portanto, a maior etapa do processo, o período de estágio. Da base para o topo da pirâmide em um só passo.

É claro que não há nenhum convite formal da juíza, nem eu tenho certeza de nada. Mas fiquei feliz em ver a coordenadora ir até a última sala do corredor só pra me dizer isso baixinho e sorrindo, repetindo que aquilo não terá a menor graça se eu não voltar. Dá até pra acreditar que sou uma boa pessoa. E, ainda mais, que sou competente, que faço diferença. Deu vontade mesmo de voltar. Não sei, não vou fazer planos nem criar expectativas. Por enquanto, vou só me alegrar e “comemorar”. Até saí pra comer cachorro-quente com dois amigos antes da aula. Eles não sabiam, mas foi a melhor comemoração que eu poderia imaginar. Ainda que eu não volte e siga mesmo meus outros planos para o ano que vem, deixarei saudades, boas lembranças e uma boa reputação. Vão sempre se lembrar de mim como o melhor conciliador, que foi embora e não voltou.

Pra não perder o clima meu querido diário, eu fiz prova de inglês hoje. Me-do. Duas semanas sem dar as caras na aula (teacher fez até uma piadinha quando me viu: Hello, Caio. Welcome! We have a test now. Dou you know?). Só que eu sabia e meu sorriso GELADO desmontou rapidinho a alegria dele. I hate happy people.

Mas isso não vem ao caso. O importante é que eu precisei estudar meio às cegas. Sem saber por onde andava a matéria, fiz todos os exercícios possíveis durante minhas viagens de ônibus e horários de lanche, até de matérias que não vi, mas, por algum motivo, pressenti que ele já tivesse ensinado. Provas ainda não, mas já ando psicografando aulas perdidas, percebam.

Daí que eu provavelmente não fui muito bem, mas, pasmem!, eu sabia fazer boa parte da prova. E o professor, num arrombo de afeto, enquanto passeava pela sala e bicava as provas, me aconselhou a RELER a questão 1 antes de entregar! Inglês nunca foi o meu forte e eu sou bem capaz de errar tudo achando que acertei, mas, exatamente por essa incapacidade de DISTINGUIR entre o right e o wrong, estou com uma boa sensação de que FATUREI! Tá certo que chutei duas questões inteiras, mas, gente, eu nem vou à aula. Esperava o quê?

A relevância dessa prova, é claro, não está nos meus dons paranormais, mas na última questão, o WRITING. Eu precisava escolher entre duas questões para escrever um pequeno texto (entre 75 e 100 palavras). Nem lembro a primeira opção porque meus olhinhos brilharam logo que caíram sobre a segunda: Você conversa com seus amigos e sua família sobre seus problemas? Por quê? – em inglês, só pra lembrar. Eu ando numa carência (mas numa carência...) e com tanta coisa errada na cabeça, que estourei o limite rapidinho. Ficou muito post de blog. Como disse uma velha amiga: profundo, intenso e intrigante. Não lembro exatamente o que escrevi, mas era algo sobre a necessidade que eu sinto de conversar.

Sou uma pessoa insegura, confio mais no bom senso dos outros que no meu e meus pensamentos não têm ordem, se confundem às vezes. Eu preciso falar (ou escrever) para tentar entender. É de mim, comigo e para mim. Dentro da cabeça, nada faz muito sentido. E eu sei que meus amigos também não me entendem (oi, nem eu!), mas me ouvir já é uma baita ajuda! Minha família não entende nem quer ouvir. Não agüento mais esse tratamento ESPECIAL que venho recebendo, estou me sentindo um leproso. E ando sem ninguém pra conversar. As pessoas têm seus próprios problemas e eu não quero ouvir. Quando eu tento me abrir com algum amigo, ele, imediatamente, vê-se no direito de se abrir comigo, e eu NÃO QUERO SABER. Egoísmo, ok, mas e daí? Não estou dando conta nem dos meus problemas, gente, desculpa, mas não posso me ocupar com os seus. Desabafar com gente feliz é a coisa mais terrível que alguém pode fazer. E, derrotado por derrotado, estou bem só comigo, obrigado.

Pode ser que, por isso, esse blog volte a funcionar a todo vapor. Ou não. Amanhã eu mudo de idéia... Lembro que meu texto começava falando exatamente da rapidez com que eu mudo de idéia. Falei até sobre bipolaridade. Teacher vai me abraçar quando corrigir. Então, enquanto eu precisar organizar meus pensamentos e não quiser conversar com pessoas de carne e osso, escreverei aqui.

E, ainda que os textos façam tanto sentido quanto esse (ou seja, NENHUM), eu estou escrevendo para mim. Divido com quem quiser, mas o objetivo não é que você entenda. Eu não entendo. E acho que nunca vou entender... (graças a Deus!).

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